LIIIIIIIMA – Parte 1

Publicado: fevereiro 25, 2015 em cotidianas
Tags:, , , , ,

Alguns amig@s me pediram dicas sobre Lima, então resolvi começar a escrever um roteirinho do que eu fiz no tempo em que fiquei lá, e sobre o que compensou ou não. Bueno… Lima tem muitos passeios legais para se fazer. Praias, sítios arqueológicos, museus, lindos parques e a comida… Hm… Só a comida já valeria a viagem. Os peruanos que conheci foram em geral simpáticos e receptivos. Quando você fala que é brasileira, todos abrem um sorrisão (“Brasil!…”) e comentam alguma coisa sobre futebol, carnaval ou sobre o Rio de Janeiro. Alguns até arranham um portunhol como forma de boas-vindas. Mas tem uma coisa que eu definitivamente não vou sentir falta: do trânsito. E esse tópico, por si só, precisava ser um post à parte…

Cada cidade tem sua dinâmica própria, e entender o trânsito de Lima é fundamental para entender a dinâmica da cidade… Se você está na faixa de pedestre e o sinal está aberto para você (e não tem um carro parado em cima dela), saiba que é meramente simbólico: o sinal fica aberto pros carros ao mesmo tempo, e “preferência” é um conceito ainda desconhecido para os peruanos. Carro não dá passagem pra pedestre nem se for idoso ou cadeirante, a menos que você force a barra sem medo de ser atropelado, ou que você seja um cliente em potencial – mas já vamos chegar lá.

Sinalização e regras básicas de civilidade no trânsito foram substituídas culturalmente pelo hábito de BUZINAR. Vai cruzar uma rua? Buzina. Ônibus parado no ponto esperando as pessoas terminarem de subir? Buzina. Sinal abriu e o motorista da frente demorou mais que meio segundo para arrancar? Buzina. Ultrapassagem pela esquerda? Buzina. Ultrapassagem em alta velocidade? Buziiiiina. Ultrapassagem de buena? Buzina. Levou uma fechada, buzina. Deu uma fechada, buzina. Conversão à esquerda, idem. Conversão à direita, ibidem. VAI QUE…, NÉ?

IMG_3700

Centro Histórico de Lima às 17h. Foto: Bruna Provazi.

Mas esqueça a imagem do Pateta que vira um monstro no trânsito. Não, os peruanos são muito tranquilos dirigindo… Vi muitos carros amassados, mas pouquíssimos motoristas se peleando. A buzina simplesmente anuncia uma cagada, seja sua ou do próximo. Também pudera, não me recordo de ter visto sequer uma placa de “Pare” em todo o tempo que fiquei lá. Vi bem poucos sinais de trânsito propriamente. “Proibido estacionar” e “Dê a preferência” já seria ostentação.

Tenho pra mim que o real motivo do caos, pra além da falta de sinalização e de regras básicas de trânsito, são os taxistas. Quer dizer, para compensar o grave problema de transporte que a cidade enfrenta, foram tomadas algumas medidas, como transformar toda e qualquer pessoa com um carro em “taxista”. Tive a sensação de que a cidade tem mais táxis do que carros comuns. Com um detalhe: no Peru não existe taxímetro, o que te obriga a negociar o preço da corrida toda vez antes de entrar no veículo. No caso de nós mulheres, significa que, para além do risco sempre iminente de ser assediada, física ou verbalmente, ou assaltada (como em algumas histórias que ouvi por lá…), você vai ter que barganhar com um homem toda vez que precisar se deslocar de táxi pela cidade…

E como quase não existe sinalização, os táxis reinam livremente, seja em pontos de ônibus, esquinas ou filas duplas. Resultado, mais demora no trânsito e, claro, mais BUZINA. Afinal, se você está andando (ou parado) na calçada, no mesmo sentido da via que o taxista, significa para eles que você pode ser um cliente em potencial, logo, BUZINA outra vez…

No final das contas, eu já estava lutando para incentivar as pessoas a atravessarem na faixa de pedestre com dignidade, numa vã tentativa de demonstrar o significado de “preferência” pros motoristas, enquanto sonhava em voltar a entrar em um táxi que simplesmente ligasse a porcaria do taxímetro e me cobrasse o valor da corrida, justo ou não.

Por fim, nunca pensei que fosse sentir tanta falta do odioso e ordenado trânsito de São Paulo. Mas antes que você desista da viagem, vou correndo escrever a parte dois do texto! Buzinas à parte, o Peru é um destino necessário na vida.😉

As luzes se acenderam e não havia um só par de olhos corajoso o suficiente pra não deixar derramar derradeiras lágrimas no canto. Uma brisa doce e selvagem havia estapeado o rosto de cada um/a de nós que decidiu sair do conforto de casa numa quarta-feira à noite pra ocupar as poltronas do CineSabesp na última sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na telona: CÁSSIA, documentário de Paulo Henrique Fontenelle que tem estreia nacional marcada pra janeiro de 2015.

Entrecortado por fotos, trechos de shows, entrevistas e videoclipes de Cássia Eller, o tom do documentário, entretanto, é dado pelos preciosos e dilaceradamente sinceros depoimentos de ícones das música brasileira e amigos íntimos da cantora, como Zélia Duncan e Nando Reis, e de familiares, como a ex-companheira Maria Eugênia e o filho Chicão, além de seus ex-parceiros de banda.

cassia-filmeEm um competente trabalho de pesquisa e edição, os trechos de entrevistas de Cássia complementam os depoimentos, quase que trazendo-a de volta para confirmar ou subverter os causos contados pelos/as amigos/as. A sensação que fica é que até em sua biografia ela tinha que meter o dedo.

Caso a alguém falhe ou mal-diga a memória, o filme vem deixar claro que Cássia era uma artista autêntica. Se as canções que gravou não eram de sua autoria, sua voz e interpretação, por sua vez, compunham o tom autoral que demarcava um estilo próprio. Prova disso está no trecho em que Ângela Rô Rô narra como “perdeu” a música “Malandragem”, que Cazuza e Frejat haviam oferecido pra ela – um dos pontos altos do filme. E se sua música se tornou mais suave com o amadurecimento de seu trabalho, essa guinada era reflexo também de seus sentimentos naquele momento. Figurino, linguajar e presença de palco, entretanto, eram os mesmos moleques de sempre:  Cássia não moldou seu estilo ao sabor das tendências do momento.

Em tempos culturais tão mercantilizados, em que a música muitas vezes é pautada pela mais nova moda memetizável/monetizável, seria difícil pensar que alguém – especialmente uma mulher – pudesse subir ao palco de bermudão e camisa de futebol sem que houvesse uma mega estratégia de marketing hipster por trás. Levantar a blusa (sem sutiã!) no meio do show? Falar abertamente sobre drogas e homossexualidade? Eram outros tempos, realmente… E a honestidade e a naturalidade com que o longa passeia por esses e outros tópicos polêmicos, como relações não-monogâmicas, nos fazem sentir um certo nojinho desse puritanismo obscurantista contemporâneo… Leia o resto deste post »

Fonte: G1.

Fonte: G1.

Escrevo este texto ao som do zunido de helicópteros e de disparos de bombas de gás lacrimogêneo aqui e acolá. Não muito longe, a Polícia Militar do Estado de São Paulo executa a operação de guerra montada para remover, criminosamente, as famílias que ocupam um prédio no centro de São Paulo. É ano de eleição, e Geraldo Alckmin batalha insidiosamente pelo voto do “cidadão de bem” paulistano.

Leia o resto deste post »

Aula de natação

Publicado: julho 10, 2014 em cotidianas
Tags:, ,

Oito caras numa raia no horário de pico, quatro quando tá “sussa”, é claro que o horário que você tem pra ir é o mesmo da maioria deles: o que a torna alvo inerente de xavecos, amenidades ou cagação de regra sub-aquática.

– É argentino. – disse a senhorinha na raia livre, enquanto aguardava o horário da hidro.

– O quê? – indaguei, ainda com água no ouvido.

– O novo papa é argentino! Acabaram de anunciar.

– Olha lá, parecem gazelas saltitando! Eu sou contra hidroginástica. Cada um que fique se mexendo na água! – bradou o reaça setentão, do alto de sua touquinha azul e amarela (comprada pela esposa).

Cena do filme "Medianeras". S2

Cena do filme “Medianeras”. S2

Ah, as incríveis vantagens da natação para o corpo e a mente… Como queria transpor para a vida terrestre a libertadora sensação de enfiar a cabeça debaixo d’água sem pudor toda vez que se deparar com um papinho desinteressante e, em questão de segundos, se vir pelo menos vinte metros longe daquele tedioso interlocutor.

E então você está lá, durante aquela horinha que conseguiu encaixar no seu tumultuado dia de trampo, nadando de braçada, na ânsia de limpar sua cabeça durante sessenta minutos da sua vida. E naquele instante em que você finalmente encosta na borda – ainda mais distante a cada vinte metros -, eis que sua respiração ofegante cruza com o olhar de um senhor, de semblante tranquilo e despojado, te observando da beiradinha da raia. E você pressente o inevitável quando nota seus lábios se movimentando lentamente para que as palavras saiam de suas cordas vocais em direção à aspirante a nadadora mais próxima: você.

– É preciso soltar o ar.

– Você tem que respirar fundo pela boca e soltar tudo embaixo d’água, pelo nariz. Até não ter mais nada… Aí então você respira novamente. Você vai ver como vai ser melhor.

Essa eu achei que devia escutar.

“NESTE ANO FAÇA ALGO POR VOCÊ
APRENDA A DANÇAR
FORRÓ
ZUMBA”

Foto: Bruna Provazi.

Foto: Bruna Provazi.

Assim diz o letreiro neon no coração de Higienópolis, como uma promessa de ano novo sussurrada no ouvido da amiga indecisa às cinco pra meia-noite na Riviera à beira-mar. O que ele não diz é que está cobrando pelo nosso ócio criativo, que trabalhamos tanto que o dinheiro ganho vai direto pagar nossa desopilação. Se estressar custa caro these days. Mas o suficiente pra ser parcelado em três vezes sem juros no cartão.

Conto as horas pra chegar o fim de semana. Mas quando ele chega, é preciso fazer uma promessa pra que o ponteiro fique mais pesado e se arraste devagar. Quando me descuido, ele já virou uma tarde vã de domingo… e uma noite desesperada de domingo, na busca louca pelo que não vai dar pra adiar mais, seja um sonho de vida ou um restinho de louça pra lavar. Leia o resto deste post »

[Texto escrito a convite da WIFT (Women In Film & Television) Brasil, em ocasião da mostra “Silêncios Históricos e Culturais”*, que marcou os 50 anos do golpe militar no Brasil.]

Cena do documentário “O Eco das Canções”, de Antonia Rossi.

Cena do filme “O Eco das Canções”, de Antonia Rossi.

Quanto de nós é resultado das paisagens que vimos, das músicas que ouvimos, dos comerciais que passavam na tevê enquanto crescíamos? Em que parte os rumos que nossa vida tomou foram influenciados pelo contexto histórico que vivemos? Em “El Eco de Las Canciones” (2010), Antonia Rossi abre seu álbum de família tentando encontrar sua identidade no turbilhão de imagens, sons e sentimentos que vão surgindo em seus sonhos e em sua memória. Leia o resto deste post »

Mudar-se, sim. Perder as origens, jamais. :)

Mudar-se, sim. Perder as origens, jamais.🙂

Quando me dei conta, já entrava no metrô sem pensar, caminho automático mental estação-casa-trabalho-casa. Já não olhava pras pessoas, a não ser pelo reflexo do vidro do trem. O anonimato foi uma das coisas que sempre me atraiu em São Paulo. Poder andar por aí, com o cabelo mais cagado do mundo, com a certeza que não vai encontrar ninguém conhecido no caminho.

Quando uma velha amiga viu eu me plantar à porta do metrô, na velocidade de um raio, na busca por um assento à sombra e ao ar (nem sempre) condicionado da CPTM, exclamou assustada: “virou paulistana mesmo!”. Quando me vi, já tinha trabalhado sábado, domingo e feriado. Tinha passado finais de semana inteiros dentro de casa, só pelo cansaço acumulado de segunda a sexta – e workaholic é só uma palavra descolada pra dizer que não tá fácil pra ninguém mesmo. Leia o resto deste post »

tatoomnvQuando eu era adolescente, tinha dois sonhos: poder tocar guitarra sem ser expulsa de casa e assistir aos shows das minhas bandas preferidas em Juiz de Fora. Algumas delas eu já tinha até viajado 8 horas pra ver ao vivo, mas não era só isso que eu queria… Queria levar as bandas que eu curtia pra tocar na minha cidade, pros meus amigos. E eu sabia que, se não movesse a bunda da cadeira, continuaria me contentando em ir aos shows das bandas preferidas de quem se dispunha a fazer isso – mesmo sabendo que, inevitavelmente, iria ficar no prejú .  Leia o resto deste post »

Marcha Mundial das Mulheres

Por: Bruna Provazi *

As bolhas da internet às vezes causam essa sensação de que estamos avançando no combate ao machismo, ao patriarcado e coisa e tal… Uma breve olhada pro horizonte à frente, pra história atrás e pra vida de todas as mulheres à nossa volta, entretanto, mostram um cenário um pouquinho diferente…

camisetabuceta2 A camiseta em questão…

Nas últimas semanas, gerou polêmica na rede uma foto da top model Izabel Goulart publicada em seu Instagram e reproduzida pela Marie Claire com o seguinte título: “Izabel Goulart se despede do Rio de Janeiro e exibe corpo perfeito”. Eu só tomei conhecimento de tal foto depois que começaram a pipocar na minha timeline do Facebook diversas críticas à abordagem da revista. Mesmíssima coisa aconteceu com a polêmica em torno da camiseta da American Apparel cuja estampa traz uma vagina peluda e menstruada sendo masturbada, e a qual Julia Petit tratou…

Ver o post original 1.087 mais palavras

Marcha Mundial das Mulheres

O que esperamos de um governo que elegemos por ser parte de um projeto comprometido com a mudança, com outro olhar para as demandas sociais, com outro jeito de (re)conhecer a população? O que esperamos de um governo que acredita na cidade, nas pessoas, e que, ao contrário do velho, acredita que de fato existe amor na cidade de São Paulo? Esperamos que este seja realmente uma outra coisa que não aquela que estávamos cansadas de saber, de questionar e de resistir. Por que dizer isso agora? Porque acreditamos realmente que as coisas, que por sinal já estão mudando, possam mudar em todos os âmbitos e lugares, pois para a construção de uma nova política pública requer diálogo, escuta, e, mais do que tudo, requer a troca e a incorporação das propostas dos movimentos sociais. Esse texto parte de um descontentamento, já antigo das mulheres, sobre uma das principais ações…

Ver o post original 1.291 mais palavras