Arquivo de julho, 2010

Um dia desses, subindo a Teodoro Sampaio a pé, em meio àquele “shopping-center-da-música-a-céu-semi-aberto”, geralmente ocupado por guitarristas, bateristas, contra-baixistas, vocalistas e roadies, (quase) todos homens, eis que vejo, sentada numa mini-bateria, uma jovenzinha de olhinhos puxados.

Não sou boa com idades, tampouco com crianças, mas ouso dizer que ela tinha em torno de seus cinco anos. A mãe, um tanto impaciente, outro tanto compreensiva, tentava, delicadamente, retirar a filha dali. Nada de grosserias, nenhum sinal de alteração de voz, nada que se mostrasse repressivo a meus olhos, os quais, da calçada, observavam a cena a uma distância segura o suficiente para não interrompê-la.  A filha, entretida com as baquetas, experimentava, por um momento, a imersão naquela realidade paralela à sua. Talvez, um instante depois, abandonasse as baquetas. Talvez, uma hora depois, já estivesse de volta a seu mundinho de bonecas, panelas e vestidos. Pouco importa.

Não fiquei ali tempo suficiente pra ver o desfecho da cena. Preferi, antes, deixar mãe e filha a sós, deixando, assim, o restante da cena se desenrolar em minha cabeça, enquanto terminava de subir a rua.  Jamais saberei se a jovenzinha de olhinhos puxados voltou (in)diferente para suas bonecas. Mas fiquei a pensar o quanto seria legal se todas as mães (e pais), por mais que impacientes, deixassem suas filhas darem um passo além do mundo, geralmente “enclausurante” e monótono, das paredes cor-de-rosa.

***
Esse episódio, a princípio tão banal, também me fez lembrar de um texto que escrevi, lá por volta do distante ano de 2006, sobre essas coisas que, por de trás das lentes lilás, não são assim tão banais, nem estão distantes.


Comparando instrumentos

Pela terceira vez, entrei naquela loja, parei em frente aos amplificadores e tive que ouvir o vendedor-adivinhador perguntar para o garoto ao meu lado se ele queria alguma ajuda.

Mentira. Na segunda vez, ele se dirigiu a mim com aquele sorriso amarelo dos vendedores-enganadores. Na segunda vez, coincidentemente, eu resolvi ir até lá desacompanhada. Tudo bem que, no primeiro dia, meu acompanhante cabeludo nem precisava de carteirinha de músico – afinal, pra todo tio, “todo cabeludo é roqueiro”, né? Além disso, tenho certeza de que ele é freqüentador assíduo de tais estabelecimentos musicais. O problema, na verdade, estava na terceira visita, e, a bem da verdade, o problema talvez fosse comigo mesma, comigo, que geminianamente indecisa e culturalmente inativa. Aquele Marshall G15-R se tornara uma verdadeira obsessão pra mim. Eu não conseguia decidir entre o Rusher 60 watts ou aquele Marshall 45, e isso me obrigava a voltar à maldita loja, cotidianamente, nas últimas semanas. Por outro lado, eu ousava me retirar do estado de passividade/opressão e ousava empunhar uma palhetinha – pra confusão do meu vendedor-intimidador.

Comecei a tocar guitarra quando minha banda começou, há quase cinco anos, e, naquela época, era incrível a quantidade de machos curiosos que se aglomeravam na porta do estúdio pra nos ouvir(ver). Era tão incrível quanto aceitável que, há cinco anos, causássemos certa agitação e curiosidade em JF (Fucking) City: hoje, não. Naquela época, antes de pipocarem (e sumirem) bandinhas femininas por aqui, era raríssimo ver mulher fazendo som. Eu quero dizer VER mesmo, afinal, nosso som era tão ruim quanto o de uma banda de menininhas de 13, 14 e 15 anos que nunca tinham tocado junto com alguém na vida e que, sequer, tinham seus instrumentos.

Isso tudo é besteira. Isso tudo é passado. Hoje em dia, a gente tem rock(?) na MTV, no Faustão, no youtube, no celular e na garagem do vizinho de franjinha. Hoje em dia, a mídia tem Pitty´s, Ludov´s, Cansei de Ser Sexy´s, Penélope´s, Wonkavision´s, Autoramas´, Bidê ou Balde´s e chuveirinhos. E Hi Hi Puffy Ami Yumi´s. Hoje em dia, é tudo mais fácil, mais aceitável… Está tudo mais misturado. Bem, talvez nem tanto assim…

Na terceira vez, meu acompanhante não era nenhum bom entendedor de escalas pentatônicas e amps. pré-valvulados, era um amigo que encontrei, por acaso, no caminho pra lá. Nem os óculos nerd e a cara de perdido foram suficientes para convencer meu vendedor-opressor de que a porra da caixa era pra mim. Será que eu preciso pular pra dentro da loja tocando air guitar e cantando I Love Rock N´ Roll?? Será que eu preciso pintar meu cabelo de rosa e tatuar um Jimi no peito?? Talvez um moicano, uma garrafa de vodca na mão, um coturno, umas correntes, um delineador, uns piercings, umas olheiras fundas e uns furinhos no braço…

Às vezes, acho que seria mais fácil se eu tocasse “órgão”.

De tempos em tempos, UM crime brutal alimenta as manchetes da mídia brasileira, causando efêmera comoção popular e despertando uma sede de justiça tão grande quanto a de vigiar e punir os assassinos dentro de nós mesm@s. Porém, ao contrário da sentença de condenação, proclamada pelo tribunal-midiático-popular antes mesmo do fim das investigações dos casos Isabela Nardoni e Susane von Richthofen, o caso Eliza Samudio conta com uma testemunha muito relevante a seu favor: o “machismo blindado” pela aliança entre capitalismo e patriarcado.

Mal a pauta da gravidez da modelo Eliza Samudio surgiu na mídia, fez-se coro para taxá-la de prostituta, maria-chuteira e oportunista, enquanto ela tentava provar a paternidade de Bruno Fernandes, goleiro do Flamengo. Até um filme pornô do qual Eliza teria participado surgiu à tona. Ela já havia registrado queixa de agressão contra o goleiro, e, em outubro de 2009, a delegada responsável pela Delegacia de Atendimento à Mulher de Jacarepaguá (RJ) pediu à Justiça medidas de proteção para a jovem. Em entrevista ao Jornal Extra, descreveu as ameaças. Oito meses depois, ela desapareceu, sem que qualquer providência houvesse sido tomada.

Quando o desaparecimento e a suspeita de assassinato voltaram a colocá-la em evidência, as revistas Veja e Isto É, em sintonia com a Rede Globo e com outros tantos veículos de comunicação, também usaram-se do argumento da desqualificação da jovem para dar seu veredito in dubio pro reu. Na capa da Isto É, a foto de Eliza em pose sensual elimina qualquer possibilidade de discurso a seu favor. Já na Veja, as palavras-chave “orgias”, “traição” e “horror”, deixam semioticamente explícita mensagem de igual teor, a qual nós da Marcha Mundial das Mulheres tratamos por mercantilização do corpo e da vida das mulheres.

A aliança machista logo se articulou para defender o jogador, repetindo episódio ocorrido com o próprio Bruno em março desse ano, quando indagou, em defesa do amigo e colega de trabalho Adriano: “Quem nunca saiu na mão com a mulher?”. Como não poderia ser diferente, no Twitter, a rede social do momento, logo o nome de Eliza constava entre as palavras mais citadas, e, reflexo dessa aliança, a maioria continha condenações moralistas e piadas sexistas.

Mas o que parece ter passado despercebido é que o tópico deveria ser Bruno, e não Eliza. A culpa é do estuprador, e não da mulher que estava de saia, tampouco da saia de Geisy Arruda. A questão não é o comportamento sexual da moça – que, convenhamos, também não engravidou sozinha – e sim o comportamento violento do goleiro. Mas Bruno já está absolvido pela mídia e pelo povo. No Programa “Mais Você” dessa sexta (9), exaltava-se a origem humilde do rapaz e as boas ações realizadas por ele na comunidade, nos levando a pensar que “ele não é tão mau assim, vai”. Somam-se a isso o depoimento de crianças dizendo que sonham em serem jogadores de futebol profissionais e o quanto ficarão decepcionadas se Bruno for culpado; e a entrevista, em clima familiar, com Lúcio, jogador da Seleção Brasileira, mostrando como é um bom pai e marido.

As investigações conduzem à incriminação do jogador e de sua trupe de amigos-primos de apelidos e tatuagens estranhos. No entanto, a conclusão do inquérito pouco importa quando o assunto é violência de gênero. Os juízes da comunicação e boa parte do júri popular brasileiro, sejam eles rubro-negros ou não, há muito já deixaram a rivalidade e as evidências de lado em prol da manutenção da tal aliança. No fundo, Bruno não pode ser condenado, porque representa o futebol-além-do-bem-e-do-mal. Puni-lo publicamente seria desvelar que a violência contra a mulher existe, e que os todo-poderosos-boleiros, além de baterem em prostitutas e patricinhas, também assassinam brutalmente mulheres com quem tiveram um filho. O caso também desvela outra cruel realidade: a rede de prostituição alimentada pelo mundo do futebol multimilionário. As tais “festas de jogadores”, nas quais são contratadas dançarinas, atrizes pornôs e prostitutas, muitas das quais acabam vítimas de agressão física, são apenas uma faceta da indústria do sexo, que levou 40 mil prostitutas à África do Sul, só no período da Copa do Mundo de 2010, e que movimenta, por ano, de 5 a 7 milhões de dólares.

No país em que uma mulher é violentada a cada 15 segundos, e dez mulheres são assassinadas por dia, as vítimas de agressão e o movimento feminista lutam para que a Lei Maria da Penha seja, de fato, cumprida, e para que, um dia, possamos viver em um mundo livre de machismo e de violência.

Bruna Provazi


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