A japinha, as baquetas e as bonecas (Comparando instrumentos – parte dois)

Publicado: julho 20, 2010 em outras, riot grrrl

Um dia desses, subindo a Teodoro Sampaio a pé, em meio àquele “shopping-center-da-música-a-céu-semi-aberto”, geralmente ocupado por guitarristas, bateristas, contra-baixistas, vocalistas e roadies, (quase) todos homens, eis que vejo, sentada numa mini-bateria, uma jovenzinha de olhinhos puxados.

Não sou boa com idades, tampouco com crianças, mas ouso dizer que ela tinha em torno de seus cinco anos. A mãe, um tanto impaciente, outro tanto compreensiva, tentava, delicadamente, retirar a filha dali. Nada de grosserias, nenhum sinal de alteração de voz, nada que se mostrasse repressivo a meus olhos, os quais, da calçada, observavam a cena a uma distância segura o suficiente para não interrompê-la.  A filha, entretida com as baquetas, experimentava, por um momento, a imersão naquela realidade paralela à sua. Talvez, um instante depois, abandonasse as baquetas. Talvez, uma hora depois, já estivesse de volta a seu mundinho de bonecas, panelas e vestidos. Pouco importa.

Não fiquei ali tempo suficiente pra ver o desfecho da cena. Preferi, antes, deixar mãe e filha a sós, deixando, assim, o restante da cena se desenrolar em minha cabeça, enquanto terminava de subir a rua.  Jamais saberei se a jovenzinha de olhinhos puxados voltou (in)diferente para suas bonecas. Mas fiquei a pensar o quanto seria legal se todas as mães (e pais), por mais que impacientes, deixassem suas filhas darem um passo além do mundo, geralmente “enclausurante” e monótono, das paredes cor-de-rosa.

***
Esse episódio, a princípio tão banal, também me fez lembrar de um texto que escrevi, lá por volta do distante ano de 2006, sobre essas coisas que, por de trás das lentes lilás, não são assim tão banais, nem estão distantes.


Comparando instrumentos

Pela terceira vez, entrei naquela loja, parei em frente aos amplificadores e tive que ouvir o vendedor-adivinhador perguntar para o garoto ao meu lado se ele queria alguma ajuda.

Mentira. Na segunda vez, ele se dirigiu a mim com aquele sorriso amarelo dos vendedores-enganadores. Na segunda vez, coincidentemente, eu resolvi ir até lá desacompanhada. Tudo bem que, no primeiro dia, meu acompanhante cabeludo nem precisava de carteirinha de músico – afinal, pra todo tio, “todo cabeludo é roqueiro”, né? Além disso, tenho certeza de que ele é freqüentador assíduo de tais estabelecimentos musicais. O problema, na verdade, estava na terceira visita, e, a bem da verdade, o problema talvez fosse comigo mesma, comigo, que geminianamente indecisa e culturalmente inativa. Aquele Marshall G15-R se tornara uma verdadeira obsessão pra mim. Eu não conseguia decidir entre o Rusher 60 watts ou aquele Marshall 45, e isso me obrigava a voltar à maldita loja, cotidianamente, nas últimas semanas. Por outro lado, eu ousava me retirar do estado de passividade/opressão e ousava empunhar uma palhetinha – pra confusão do meu vendedor-intimidador.

Comecei a tocar guitarra quando minha banda começou, há quase cinco anos, e, naquela época, era incrível a quantidade de machos curiosos que se aglomeravam na porta do estúdio pra nos ouvir(ver). Era tão incrível quanto aceitável que, há cinco anos, causássemos certa agitação e curiosidade em JF (Fucking) City: hoje, não. Naquela época, antes de pipocarem (e sumirem) bandinhas femininas por aqui, era raríssimo ver mulher fazendo som. Eu quero dizer VER mesmo, afinal, nosso som era tão ruim quanto o de uma banda de menininhas de 13, 14 e 15 anos que nunca tinham tocado junto com alguém na vida e que, sequer, tinham seus instrumentos.

Isso tudo é besteira. Isso tudo é passado. Hoje em dia, a gente tem rock(?) na MTV, no Faustão, no youtube, no celular e na garagem do vizinho de franjinha. Hoje em dia, a mídia tem Pitty´s, Ludov´s, Cansei de Ser Sexy´s, Penélope´s, Wonkavision´s, Autoramas´, Bidê ou Balde´s e chuveirinhos. E Hi Hi Puffy Ami Yumi´s. Hoje em dia, é tudo mais fácil, mais aceitável… Está tudo mais misturado. Bem, talvez nem tanto assim…

Na terceira vez, meu acompanhante não era nenhum bom entendedor de escalas pentatônicas e amps. pré-valvulados, era um amigo que encontrei, por acaso, no caminho pra lá. Nem os óculos nerd e a cara de perdido foram suficientes para convencer meu vendedor-opressor de que a porra da caixa era pra mim. Será que eu preciso pular pra dentro da loja tocando air guitar e cantando I Love Rock N´ Roll?? Será que eu preciso pintar meu cabelo de rosa e tatuar um Jimi no peito?? Talvez um moicano, uma garrafa de vodca na mão, um coturno, umas correntes, um delineador, uns piercings, umas olheiras fundas e uns furinhos no braço…

Às vezes, acho que seria mais fácil se eu tocasse “órgão”.

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comentários
  1. Tica disse:

    hoje eu passei numa loja cheia de guitarras lindas aqui em bs as e lembrei desse seu texto massa =)

  2. […] A japinha, as baquetas e as bonecas (Comparando instrumentos – parte dois) […]

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