Arquivo de setembro, 2010

Nem papas, nem juízes: as mulheres decidem

Publicado: setembro 28, 2010 em outras

Hoje, 28 de setembro, é o Dia Latino-americano e Caribenho de Luta pela Legalização do Aborto.

Em um dia de intensas mobilizações internacionais nas ruas e na rede, deixo aqui meu apoio a essa causa tão importante, ilustrado através de quatro representativos slogans da Marcha Mundial das Mulheres:

Legalizar o aborto! Direito ao nosso corpo!

Historicamente, o corpo da mulher é objeto de controle. A maternidade deve ser uma ESCOLHA, não uma imposição. Cabe a nós decidir SE queremos, quando e como queremos ter filh@s. É questão de autonomia e direito ao nosso corpo.

Eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas!

O aborto é a terceira causa de morte materna no Brasil, das quais grande parte é de mulheres pobres (e negras) que, por não terem acesso a clínicas, acabam recorrendo a métodos precários, tais como objetos perfurantes e chás.

Criminalizar quem pratica o aborto no Brasil, hoje, é permitir que mulheres pobres morram em decorrência de procedimentos mal-sucedidos, ou que sejam presas, enquanto aquelas que podem pagar por um aborto seguro continuem sendo atendidas em clínicas clandestinas limpinhas. Por isso defendemos não apenas a descriminalização, como a legalização: para que o Estado forneça, na rede pública de saúde, condições humanas de atendimento àquelas mulheres que precisem abortar.

Tirem os rosários de nossos ovários!

Os pró-vida fazem coro para nos impor a crença a uma concepção de vida, recusando os princípios de liberdade religiosa e estado laico. Tentam nos empurrar útero abaixo um conceito de “vida” do qual nem a tal da ciência tem consenso. Defender a legalização do aborto também e defender a liberdade de credo e a laicidade do Estado.

Cadê o homem que engravidou? Por que o crime é da mulher que abortou?

Quando a utilização do preservativo nem sempre é uma negociação fácil, quando os métodos anticoncepcionais são comprovadamente falíveis, e, sobretudo, quando ao parceiro não é atribuída qualquer responsabilidade pela prática do aborto, é inaceitável criminalizar as mulheres por tal ato.

Assine o manifesto da Frente:

Informe-se mais sobre o assunto através do site da Ipas.

#proescolha #legalizaçãodoaborto

Feminismo 2.0 contra o machismo neandertal

Publicado: setembro 16, 2010 em outras

Não é novidade nenhuma pra nós feministas que as mulheres são, cotidianamente, vítimas de opressão. Também não é novidade pra nós que a opressão é transversal: tá na repressão que sofremos de pais, namorados ou maridos, no assédio do chefe, do pedreiro da esquina ou do trocador de ônibus, nas imposições das revistas femininas e nas estereotipias dos meios de comunicação em geral. Talvez por isso eu não tenha me espantado muito quando uma amiga me enviou, por e-mail, o texto do machistão nojento, professor da FAAP e especialista em conservadorismo, religião e mau gosto, Luiz Felipe Pondé – a quem prefiro chamar, carinhosamente, de “Luizinho”.

Um textinho medíocre, uma vomitadela de clichês tipo cantada de tiozinho bêbado em final da balada. Algo mesmo como “as feministas são mal-amadas, mal-comidas e mal-depiladas – aliás, nem se depilam (que horror!)”. Preguiça, né, gente? Entretanto, como, infelizmente, o doutor Luizinho conseguiu espaço na Folha de São Paulo (só pra constar: caguei pra Folha); como, pra nossa tristeza ainda maior, algumas dezenas de pessoas certamente leram esse monte de besteira; e como, obviamente, não temos direito de resposta nesse jornaleco, a verve feminista nos colocou, imediatamente, em posição de esclarecer um pouco as coisas pr@s leitores do Luizinho. E é daí que esse texto deveria começar, na verdade.

No debate de abertura do Ladyfest Brasil desse ano, entitulado Feminismo Além do Bem e do Mal: aliança feminista contra o machismo blindado, Vange Leonel falava algo sobre como o machismo é de tal forma estruturado na sociedade, que é como se tivesse uma blindagem. Sabe o senso comum sobre a amizade masculina e a rivalidade feminina? Meninos compartilham façanhas sexuais, chamam-se uns aos outros de viado e filho da puta, e jogam bola aos finais de semana. Meninas duelam pelo bonitão do colégio, invejam a roupa e o cabelo umas das outras e falam mal das outras pelas costas. Tudo socialmente aceito e naturalizado: normal.

É sobretudo contra essa couraça machista, de tal forma construída e consolidada, ao longo dos anos, pelos pais e avós dos Luizinhos, que temos que lutar, diariamente. E é por essas e outras que temos que abandonar tais naturalismos, tão velhos e obsoletos quanto o texto de nosso amigo – e quanto a ideia de que vivemos em eterna disputa pelo pênis perfeito – em prol dessa coisa maior a que chamamos auto-organização.

Na tarde dessa segunda-feira ensolarada, bastou uma rápida troca de mensagens eletrônicas para que a rede feminista fosse acionada. Do trabalho, do estágio, da faculdade e de casa, rapidamente levantamos a ficha do doutô e nos pusemos a lutar com as palavras, contemplando a blogosfera com lições de história e tons de poesia. Também mandamos e-mails pro Luizinho e pro jornalzinho, claro. Irônicas, irritadas ou arrogantes, publicamos, tuitamos e retuitamos nossa própria versão de nossas próprias vidas. Felizmente, fazemos parte da parcela da população que tem acesso às teclas e às letras. Afora nossa evidente inclusão sócio-digital, sobressai, EM CAIXA ALTA, a vantagem de estarmos organizadas nessa rede feminista de solidariedade e ativismo político.

Muitas vezes, em minha vida, quis encontrar amigas para compartilhar a opressão isolada que eu sempre senti e que, até então, não compreendia como sendo coletiva: a tal da opressão de gênero que atinge a todas as mulheres, em maior ou menor grau. Algum tempo depois, encontrei companheiras com as quais pude pensar alto, aliviada por saber-me não mais sozinha e por compreender que meu sentimentos não eram efeito de puro delírio ou de álcool puro. Mas, cada vez mais, estou convencida de que não bastam desabafos em mesa de bar ou felizes histórias de self-made women que superaram desafios e, de alguma forma incrível, tornaram-se ricas, independentes(?) e casaram-se com Luís Fernando de la Vega.

Troco a picanha de domingo pelo ativismo cotidiano e organizado, não pelo bife de soja diário do restaurante indie da moda, porque o sistema capitalista-patriarcal não admite “soluções individuais para problemas coletivos”. Como diz o Team Dresch: Freedom is freedom: it’s for all or it’s all for nothing.



Seguem bons textos publicados em resposta ao nosso amigo doutô:


Sobre pelos e nojos
, em Roupas no Varal

Resposta a Pondé – A obsolência das Agonias Contemporâneas, em Ofensiva contra a Mercantilização

A clara agonia de um homem senil, em Ofensiva contra a Mercantilização

E se eu não quiser me depilar, algum problema?, em Viva Mulher

As mulheres tem motivos para lutar, em Blog Muié


Fica a dica de um protesto bem-humorado também:
http://neopelucias.wordpress.com/


É por essas e outras que agradeço ao Luizinho pela gentileza. Como já disse, algumas vezes, essa semana: se cada manifestação pública de machismo gerar tanta produção boa quanto as que li nesses últimos dias, vou tentar parar de criticar a Folha, o CQC, o Pânico, os filmes hollywoodianos, as revistas femininas, os meios de comunicação de massa, o meu colega de trabalho, o seu vizinho, os nossos pais…

Dizem que “pior que Legião Urbana, só os fãs de Legião Urbana”. Dizem que “o problema do Ramones são os fãs”. Mas ainda paira uma dúvida. O que é pior: o CQC ou os fãs de CQC? Não falo do público médio, que se informa pelo Jornal Nacional, pela Folha de São Paulo e pelo @blogdonoblat. Falo da classe média progressista, que bate no peito pra se entitular “anti” qualquer coisa e que mal (ou bem) sabe, está compactuando com essa típica peça neo-nazista.

Sinceramente, me digam EM QUÊ MUNDO fazer mulheres-objeto de “piadas” extremamente grosseiras e sexistas, divididas entre prostitutas ou barangas, por essa corja de machos-cafetões que as condena enquanto consome seu “produto” pode ser considerado “humor”?? Com que direito a mesma corja que compra Playboy e que se alimenta, diariamente, das mulheres-fruta pode apontar o dedo para elas, tão coagidas pelo sistema capitalista patriarcal que, muitas vezes, não conseguem responder a tais ofensas senão com um risinho tímido ou um sorriso amarelo? Muitas vezes, elas sequer se dão conta de que são as grandes vítimas da história. Bruna Surfistinha, grande troféu pra classe média machista se vangloriar em dizer que “a mulher está nessa vida porque gosta” confessou ter começado a se prostituir pra se sentir valorizada, porque se achava feia. Arrisco a comparar tal declaração com os tais sorrisos amarelados: EM QUÊ MUNDO uma mulher precisa ser alvo de assédio em rede pública para se sentir valorizada? Peço desculpas publicamente aqui, por não achar isso engraçado.

Mas isso não é tudo. Deixemos de lado as mulheres que trabalham com seu corpo – e que, para a corja, por si só já merecem ser alvo de todo o seu lixo preconceituoso. Como se não bastassem os ataques a tais moças, tal como o machão que bate na esposa porque está estressado, o CQCista se incomoda com a presença de toda e qualquer mulher no espaço público e busca, incessantemente, desqualificá-las.

Há poucos dias, quando saiu mais uma pesquisa apontando a vantagem de vinte pontos da candidata à presidência Dilma Roussef sobre o tucano José Serra, o centro-avante dos machões CQCistas Danilo Gentili logo se prontificou em publicar em seu twitter algo como “só assim para ela abrir as pernas em cima de um homem” (OI??). Ultimamente, comentários misóginos e ultrajantes como esse garantem a tais “humoristas”, basicamente, três coisas: audiência da “juventude esclarecida”; espaço em um meio de comunicação que, enquanto concessão pública, deveria representar a mulher (e a população) brasileira em sua diversidade; e dinheiro – muito dinheiro. Desculpem, novamente, mas também não acho isso engraçado. Tais “piadas” são sintomáticas da classe de machistas reacionários que, em prol da manutenção de seu status quo, desqualificam toda e qualquer mulher que ouse ultrapassar a fronteira do espaço doméstico e descumprir seu papel “natural” de boa mãe, boa esposa e boa diarista.

Mas os disparos dos homens brancos vestidos de preto não restringem-se às mulheres: homossexuais, pobres e negr@s são tratados com semelhante grau de preconceito e discriminação. Ainda que seja – aparentemente – óbvio, deixo claro aqui que esse tipo de “humor” não é exclusividade dos discípulos de Marcelo Tas. Estamos cansadas de ser igualmente rechaçadas em programas tipo Casseta e Planeta, Pânico e afins – na verdade, pelos meios de comunicação de massa em geral, mas isso fica pra outro texto. O que, supostamente, diferencia o CQC é a tentativa cínica de querer encobrir tal postura neo-nazista com fachada de jornalismo investigativo. É facil assediar a mulher-fruta-da-vez, chamar o tenista negro de King-Kong e jogar glitter nos homossexuais na Parada Gay. O que parece estar muito além do alcance dos engraçadinhos de plantão é fazer piadas inteligentes e questionar os padrões sociais. Mas eles não querem e não estão nem aí pra isso, afinal, de qualquer forma, o público vai rir no final.

Desculpem-me mais uma vez, mas não acho graça nesse tipo de “humor”. Talvez por isso eu seja a favor da censura ao “humor” que nos censura, ao “humor” que ri das minorias historicamente oprimidas e marginalizadas com o aval da classe média esclarecida, e me sinto no direito de fazer passeata, escrever moção de repúdio, colar lambe-lambe, criar um blog, um fanzine, quem sabe uma letra de música. Porque cada um(a) luta com as armas que tem e, infelizmente, nós não temos um canal de televisão.