O Quarto do Poder (Pela censura ao “humor” que nos censura)

Publicado: setembro 13, 2010 em mídia, mercantilização, outras

Dizem que “pior que Legião Urbana, só os fãs de Legião Urbana”. Dizem que “o problema do Ramones são os fãs”. Mas ainda paira uma dúvida. O que é pior: o CQC ou os fãs de CQC? Não falo do público médio, que se informa pelo Jornal Nacional, pela Folha de São Paulo e pelo @blogdonoblat. Falo da classe média progressista, que bate no peito pra se entitular “anti” qualquer coisa e que mal (ou bem) sabe, está compactuando com essa típica peça neo-nazista.

Sinceramente, me digam EM QUÊ MUNDO fazer mulheres-objeto de “piadas” extremamente grosseiras e sexistas, divididas entre prostitutas ou barangas, por essa corja de machos-cafetões que as condena enquanto consome seu “produto” pode ser considerado “humor”?? Com que direito a mesma corja que compra Playboy e que se alimenta, diariamente, das mulheres-fruta pode apontar o dedo para elas, tão coagidas pelo sistema capitalista patriarcal que, muitas vezes, não conseguem responder a tais ofensas senão com um risinho tímido ou um sorriso amarelo? Muitas vezes, elas sequer se dão conta de que são as grandes vítimas da história. Bruna Surfistinha, grande troféu pra classe média machista se vangloriar em dizer que “a mulher está nessa vida porque gosta” confessou ter começado a se prostituir pra se sentir valorizada, porque se achava feia. Arrisco a comparar tal declaração com os tais sorrisos amarelados: EM QUÊ MUNDO uma mulher precisa ser alvo de assédio em rede pública para se sentir valorizada? Peço desculpas publicamente aqui, por não achar isso engraçado.

Mas isso não é tudo. Deixemos de lado as mulheres que trabalham com seu corpo – e que, para a corja, por si só já merecem ser alvo de todo o seu lixo preconceituoso. Como se não bastassem os ataques a tais moças, tal como o machão que bate na esposa porque está estressado, o CQCista se incomoda com a presença de toda e qualquer mulher no espaço público e busca, incessantemente, desqualificá-las.

Há poucos dias, quando saiu mais uma pesquisa apontando a vantagem de vinte pontos da candidata à presidência Dilma Roussef sobre o tucano José Serra, o centro-avante dos machões CQCistas Danilo Gentili logo se prontificou em publicar em seu twitter algo como “só assim para ela abrir as pernas em cima de um homem” (OI??). Ultimamente, comentários misóginos e ultrajantes como esse garantem a tais “humoristas”, basicamente, três coisas: audiência da “juventude esclarecida”; espaço em um meio de comunicação que, enquanto concessão pública, deveria representar a mulher (e a população) brasileira em sua diversidade; e dinheiro – muito dinheiro. Desculpem, novamente, mas também não acho isso engraçado. Tais “piadas” são sintomáticas da classe de machistas reacionários que, em prol da manutenção de seu status quo, desqualificam toda e qualquer mulher que ouse ultrapassar a fronteira do espaço doméstico e descumprir seu papel “natural” de boa mãe, boa esposa e boa diarista.

Mas os disparos dos homens brancos vestidos de preto não restringem-se às mulheres: homossexuais, pobres e negr@s são tratados com semelhante grau de preconceito e discriminação. Ainda que seja – aparentemente – óbvio, deixo claro aqui que esse tipo de “humor” não é exclusividade dos discípulos de Marcelo Tas. Estamos cansadas de ser igualmente rechaçadas em programas tipo Casseta e Planeta, Pânico e afins – na verdade, pelos meios de comunicação de massa em geral, mas isso fica pra outro texto. O que, supostamente, diferencia o CQC é a tentativa cínica de querer encobrir tal postura neo-nazista com fachada de jornalismo investigativo. É facil assediar a mulher-fruta-da-vez, chamar o tenista negro de King-Kong e jogar glitter nos homossexuais na Parada Gay. O que parece estar muito além do alcance dos engraçadinhos de plantão é fazer piadas inteligentes e questionar os padrões sociais. Mas eles não querem e não estão nem aí pra isso, afinal, de qualquer forma, o público vai rir no final.

Desculpem-me mais uma vez, mas não acho graça nesse tipo de “humor”. Talvez por isso eu seja a favor da censura ao “humor” que nos censura, ao “humor” que ri das minorias historicamente oprimidas e marginalizadas com o aval da classe média esclarecida, e me sinto no direito de fazer passeata, escrever moção de repúdio, colar lambe-lambe, criar um blog, um fanzine, quem sabe uma letra de música. Porque cada um(a) luta com as armas que tem e, infelizmente, nós não temos um canal de televisão.

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comentários
  1. Camila disse:

    Muito bem! Ótimo texto!

    Nos anos 70 os engraçadinhos estavam no Pasquim. É só olhar algumas das pérolas dando um google básico. Mas pra poupar o tempo de quem tem pouco segue um link de um texto que analisa as publicações do Pasquim. http://www.espacoacademico.com.br/084/84soihet.htm

    • roupas no varal disse:

      e é impressionante o tanto de gente que se diz progressista e adora esse humor conservador.
      a piada, as brincadeiras, o “humor”, vira a válvula de escape pra expressar todos os preconceitos que a galerinha que se diz “politicamente correta” tem. e expressam produzindo essas porcarias ou dando audiencia e rindo do conteúdo veiculado.
      aliás, que idéia mais tosca essa do politicamente correto. não serve pra nada, só atrapalha e mascara o conservadorismo entranhado em um monte de corações e mentes.
      adorei seu texto!

  2. roupas no varal disse:

    e é impressionante o tanto de gente que se diz progressista e adora esse humor conservador.
    a piada, as brincadeiras, o “humor”, vira a válvula de escape pra expressar todos os preconceitos que a galerinha que se diz “politicamente correta” tem. e expressam produzindo essas porcarias ou dando audiencia e rindo do conteúdo veiculado.
    aliás, que idéia mais tosca essa do politicamente correto. não serve pra nada, só atrapalha e mascara o conservadorismo entranhado em um monte de corações e mentes.
    adorei seu texto!

  3. Thamy disse:

    ótimo texto! Não tinha visto ainda.
    E concordo com o roupas no varal até no ponto final!

  4. Danilo Campos disse:

    A Bruna fez Merchan e eu entrei !!! Não tinha lido os textos ainda. Mas sabe aquele um que preenche o espaço com questões e respostas ?? Que te faz avançar no raciocínio ?? Tá aqui um deles !!! Estou recomendando…

  5. […] que esperássemos nada dos machos brancos vestidos de preto. Inclusive já havia escrito aqui sobre o séquito CQCista que, na cruzada (em busca de risos, ibope e dinheiro, muito dinheiro) […]

  6. Angie disse:

    Discordo do que você diz. Suas palavras soam exageradas e ingênuas. Está vendo problemas onde eles não existem. Deixa de ser hipócrita.

  7. […] pedimos o boicote. A trilha nesse momento ficou por conta da própria multidão organizada: “Abaixo o CQC!” / “Marcelo Tas, me processa!” / […]

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