Feminismo 2.0 contra o machismo neandertal

Publicado: setembro 16, 2010 em outras

Não é novidade nenhuma pra nós feministas que as mulheres são, cotidianamente, vítimas de opressão. Também não é novidade pra nós que a opressão é transversal: tá na repressão que sofremos de pais, namorados ou maridos, no assédio do chefe, do pedreiro da esquina ou do trocador de ônibus, nas imposições das revistas femininas e nas estereotipias dos meios de comunicação em geral. Talvez por isso eu não tenha me espantado muito quando uma amiga me enviou, por e-mail, o texto do machistão nojento, professor da FAAP e especialista em conservadorismo, religião e mau gosto, Luiz Felipe Pondé – a quem prefiro chamar, carinhosamente, de “Luizinho”.

Um textinho medíocre, uma vomitadela de clichês tipo cantada de tiozinho bêbado em final da balada. Algo mesmo como “as feministas são mal-amadas, mal-comidas e mal-depiladas – aliás, nem se depilam (que horror!)”. Preguiça, né, gente? Entretanto, como, infelizmente, o doutor Luizinho conseguiu espaço na Folha de São Paulo (só pra constar: caguei pra Folha); como, pra nossa tristeza ainda maior, algumas dezenas de pessoas certamente leram esse monte de besteira; e como, obviamente, não temos direito de resposta nesse jornaleco, a verve feminista nos colocou, imediatamente, em posição de esclarecer um pouco as coisas pr@s leitores do Luizinho. E é daí que esse texto deveria começar, na verdade.

No debate de abertura do Ladyfest Brasil desse ano, entitulado Feminismo Além do Bem e do Mal: aliança feminista contra o machismo blindado, Vange Leonel falava algo sobre como o machismo é de tal forma estruturado na sociedade, que é como se tivesse uma blindagem. Sabe o senso comum sobre a amizade masculina e a rivalidade feminina? Meninos compartilham façanhas sexuais, chamam-se uns aos outros de viado e filho da puta, e jogam bola aos finais de semana. Meninas duelam pelo bonitão do colégio, invejam a roupa e o cabelo umas das outras e falam mal das outras pelas costas. Tudo socialmente aceito e naturalizado: normal.

É sobretudo contra essa couraça machista, de tal forma construída e consolidada, ao longo dos anos, pelos pais e avós dos Luizinhos, que temos que lutar, diariamente. E é por essas e outras que temos que abandonar tais naturalismos, tão velhos e obsoletos quanto o texto de nosso amigo – e quanto a ideia de que vivemos em eterna disputa pelo pênis perfeito – em prol dessa coisa maior a que chamamos auto-organização.

Na tarde dessa segunda-feira ensolarada, bastou uma rápida troca de mensagens eletrônicas para que a rede feminista fosse acionada. Do trabalho, do estágio, da faculdade e de casa, rapidamente levantamos a ficha do doutô e nos pusemos a lutar com as palavras, contemplando a blogosfera com lições de história e tons de poesia. Também mandamos e-mails pro Luizinho e pro jornalzinho, claro. Irônicas, irritadas ou arrogantes, publicamos, tuitamos e retuitamos nossa própria versão de nossas próprias vidas. Felizmente, fazemos parte da parcela da população que tem acesso às teclas e às letras. Afora nossa evidente inclusão sócio-digital, sobressai, EM CAIXA ALTA, a vantagem de estarmos organizadas nessa rede feminista de solidariedade e ativismo político.

Muitas vezes, em minha vida, quis encontrar amigas para compartilhar a opressão isolada que eu sempre senti e que, até então, não compreendia como sendo coletiva: a tal da opressão de gênero que atinge a todas as mulheres, em maior ou menor grau. Algum tempo depois, encontrei companheiras com as quais pude pensar alto, aliviada por saber-me não mais sozinha e por compreender que meu sentimentos não eram efeito de puro delírio ou de álcool puro. Mas, cada vez mais, estou convencida de que não bastam desabafos em mesa de bar ou felizes histórias de self-made women que superaram desafios e, de alguma forma incrível, tornaram-se ricas, independentes(?) e casaram-se com Luís Fernando de la Vega.

Troco a picanha de domingo pelo ativismo cotidiano e organizado, não pelo bife de soja diário do restaurante indie da moda, porque o sistema capitalista-patriarcal não admite “soluções individuais para problemas coletivos”. Como diz o Team Dresch: Freedom is freedom: it’s for all or it’s all for nothing.



Seguem bons textos publicados em resposta ao nosso amigo doutô:


Sobre pelos e nojos
, em Roupas no Varal

Resposta a Pondé – A obsolência das Agonias Contemporâneas, em Ofensiva contra a Mercantilização

A clara agonia de um homem senil, em Ofensiva contra a Mercantilização

E se eu não quiser me depilar, algum problema?, em Viva Mulher

As mulheres tem motivos para lutar, em Blog Muié


Fica a dica de um protesto bem-humorado também:
http://neopelucias.wordpress.com/


É por essas e outras que agradeço ao Luizinho pela gentileza. Como já disse, algumas vezes, essa semana: se cada manifestação pública de machismo gerar tanta produção boa quanto as que li nesses últimos dias, vou tentar parar de criticar a Folha, o CQC, o Pânico, os filmes hollywoodianos, as revistas femininas, os meios de comunicação de massa, o meu colega de trabalho, o seu vizinho, os nossos pais…

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comentários
  1. roupas no varal disse:

    “Afora nossa evidente inclusão sócio-digital, sobressai, EM CAIXA ALTA, a vantagem de estarmos organizadas nessa rede feminista de solidariedade e ativismo político.”

    Muito massa estar na mesma rede feminista de solidariedade e ativismo político que você e outras tantas.
    O nosso “em marcha até que todas sejamos livres” é pra valer =)

  2. Ana Ferraz disse:

    Olha o erro de lógica já no início do texto:
    “O que haveria de errado em mulheres que querem atrair os homens e por isso se fazem bonitas? Macacas atraem macacos, aves fêmeas atraem aves machos.
    Mas parece haver umas pessoas por aí que acham que legal é ser feia. É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.”

    Seria “natural” a fêmea querer atrair o homem, por isso, as mulheres, sendo animais como macacos e aves, agiriam da mesma maneira.
    Só que, tão “natural” quanto isso, é ter pelos. Não natural é tirá-los.
    Se Luizinho quer que a raça humana aja com o instinto natural, por que criticar tanto uma coisa natural como pelos?

    E depois, parece que ele nunca viu Discovery Channel nem National Geography. Na maioria dos animais, o “natural” é o macho seduzir a fêmea. Por isso o pavão macho tem toda aquela penugem. Por isso os alces, veados, e outros, duelam na frente das fêmeas, e depois exibem seus grandes chifres. Por isso várias espécies, tipo pássaros, anfíbios, répteis, tem os machos mais coloridos e enfeitados que as femeas. As femeas desses animais todos é que escolhem, e eles que precisam ser “atraentes”.

    Ou seja, nem entrando muito no quesito situação da mulher, dá pra quebrar todá a lógica do texto no início.

  3. Ana Ferraz disse:

    Haha, e olha o segundo erro de lógica:
    “É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.
    Quais seriam esses “direitos”? De ser feia? De parecer com homens e disputar o Prestobarba de manhã?”

    Se a mulher for disputar o Prestobarba é porque ela vai.. hã? Tirar os pelos! Então eu não entendo, o sujeito não quer uma mulher que use um prestobarba ou lamina qualquer, mas que ainda assim se depile.
    Ou seja: para o sujeito, não basta se depilar, a mulher precisa ir num salão de beleza para isso, precisa arrancar cada pelinho com cera quente, pra mostrar pro maridão o quanto sofreu pra ficar bonita para ele.
    R-I-D-I-C-U-L-O.
    Cada um faz o que quer e como quer. Se não quiser tirar os pelos, ótimo. Se quiser, e quiser usar gillete, prestobarba, ou o que for, ótimo também. E se quiser ir na depiladora e tirar com cera quente, fria, de abelhas, ótimo. Que sujeitinho confuso esse tal de Luiz.

  4. Neopelucias disse:

    Luiz Felipe Pondé em seu texto machista (“Restos à Janela” – Folha de São Paulo – 13/09) reclamou das neopeludas e ganhou as neopelucias.

    Ajude a divulgar
    Participe você também enviando a sua cartinha: Pentelhando Luiz Felipe em 4 passos.

    http://neopelucias.wordpress.com/

  5. bianca disse:

    que bom que tem trabalhos de historia

  6. Karen disse:

    Acho cho ótimo que os conservadores nacionais escrevam e tirem seu pedantismo, misoginia e machismo de dentro do armário. Apesar da velha tática de refletir uma imagem modernosa, se revelam quando abrem a boca. Acho bom porque qualquer macho com um mínimo de QI consegue, ou deveria conseguir, enxergar o quão patéticos e anacrônicos são os discursos dos tempos do vovô, do papai….. Se um senhor dessa envergadura consegue destilar comentários de monumental ignorância, imaginem o zé mané da vida; este se sentirá autorizado a repercutir um discurso legitimado por um doutor. Doutor patético que se sente incomodado com as transformações sociais de mais de 50 anos, quando a mulher chega em massa ao mercado de trabalho, e que ainda hoje não conseguiu superar suas perdas diante dessa nova sociedade. Meus pêsames pelo Brasil ter um filósofo de tão pequena estatura. Quando ao Pondé, mais rizível impossível. Ótimo post!

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