Arquivo de novembro, 2010

Na manhã dessa ensolarada sexta-feira, duas garotas cruzaram a cidade de São Paulo rumo ao Howard Johnson Faria Lima. Na área externa do Hotel, duas mulheres, uma de cabelos molhados, a outra de óculos-escuros, ambas de roupas despojadas, conversavam, tranquilamente sentadas à mesa de madeira. Entre uma frase e outra da primeira, a segunda passava os olhos pela tela de um laptop. Como está a situação da mulher, hoje, no Brasil?

Assim começou o encontro entre a Fuzarca Feminista, representada pela Clarisse Aló e por mim, e as Guerrilla Girls. Logo que nos apresentamos, Kathe e Frida, como gostam de ser chamadas duas das artistas fundadoras e mais atuantes do coletivo, “abriram para as perguntas”. Estavam interessadas em saber mais sobre Dilma Rousseff (Ela é feminista? Como ganhou a eleição?), sobre a quantidade de mães solteiras, sobre os índices de violência e sobre a questão do aborto no país. O aborto é permitido no Brasil? Mas as mulheres fazem? Ah, então quem são presas são as pobres, right? BINGO! Kathe e Frida, através de uma lógica simples e sem maiores esforços, rapidamente diagnosticaram o que parece tão difícil de ser compreendido por aqui…

The Birth of Feminism - Guerrilla Girls no SESC

Em seguida, passamos para uma prova oral sobre a Marcha Mundial das Mulheres. Interessadas em conhecer nossa atuação, queriam saber como se faz para entrar no movimento, quais são nossas pautas e, principalmente, como conseguimos articular a organização internacionalmente.

Por mais de trinta minutos, fomos entrevistadas pelas Guerrilla Girls. Fomos lá para entrevistá-las e acabamos entrevistadas por elas(!). Ainda um pouco desnorteadas, passamos então para as nossas próprias perguntas. Finalmente, pudemos ligar o gravador (de áudio). Elas não haviam nos permitido filmar; estavam sem máscaras, o que tornou aquele momento ainda mais especial – nós sabíamos a identidade secreta de nossas semi-heroínas!

Guerrilla em protesto inusitado

As gorilas nos contaram um pouco sobre a origem do grupo e nos deram ideias de ativismos. Mostraram-nos um pôster sobre o aborto, no qual, em meio a uma manifestação, elas aparecem segurando cartazes reivindicando a volta dos valores tradicionais. Em seguida, a explicação: conforme haviam descoberto, o aborto era uma prática recorrente e legal nos EUA dos séculos anteriores. Quando questionadas a respeito de uma possível apropriação de sua arte, hoje, pelos meios massivos e pelos grandes museus que sempre criticaram, foram enfáticas: Queremos inspirar outras pessoas, e quanto mais pessoas pudermos atingir com a nossa mensagem, melhor.

Com certeza, eu, a Clarisse e todo mundo que foi até o SESC Pinheiros, à noite, saímos bastante inspiradas.

 

Guerrilla Girls e Fuzarca Feminista

 

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Liberdade, Igualdade e Sexo

Publicado: novembro 18, 2010 em outras, riot grrrl

Entrar numa loja de instrumentos musicais é sempre uma aventura extremamente desagradável – pros seres humanos do sexo feminino. Isso nem é nenhuma novidade pra mim, inclusive já falei sobre aqui, mas não deixa de ser uma experiência exótica a cada vez…

(mais…)

Quando apresentei meu trabalho de conclusão de curso, sobre o Festival Mulheres no Volante, uma das (três) professoras da banca, a Rogéria, me perguntou por que as meninas montam bandas de meninas. Ontem, no curso de formação feminista da SOF, enquanto discutíamos auto-organização das mulheres, essa pergunta, de repente, me voltou à cabeça. O legal de militar, cotidianamente, no movimento feminista, é que sempre temos umas epifanias e umas ideias loucas no meio das discussões. E o mais legal é que às vezes colocamos essas ideias em prática – mas nem é disso que vou falar aqui…

Big Hole no MnV 2008

De repente,entre um gole e outro de café, me vieram uns flashes da Big Hole, minha primeira (e, por muito tempo, quase única) banda. 🙂

No auge dos meus 15 anos, o filme do Runaways ainda não passava no cinema, e tocar guitarra era algo extremamente enfrentador, principalmente dentro da minha própria casa. Na rua, não era diferente… Em 2001, enquanto a Marcha Mundial das Mulheres se articulava como um movimento social radical anti-capitalista e anti-patriarcal, as poucas meninas da cena roqueira de Juiz de Fora ainda eram, em sua maioria, as namoradas dos meninos que tocavam em bandas, que organizavam shows e que tinham livre entrada e saída em casa. No pós-riot grrrl, as meninas que iam aos shows, quando não eram amigas dos meninos das bandas, eram tietes ou tímidas amantes do rock´n´roll – essas últimas sempre foram minoria.

Aos 15 anos, ter uma banda só de meninas sempre me pareceu a coisa mais natural. Acho que, na época, parecia apenas a coisa mais massa de se fazer. E era mesmo muito massa sair com as minhas amigas da banda (e com as que vieram a se tornar minhas amigas por causa da banda), rir de tudo e de todos e não depender mais dos meninos pra fazer a maioria das coisas. Talvez nunca tivéssemos pensado conscientemente sobre isso, mas hoje, quase dez anos depois, as coisas nunca fizeram tanto sentido pra mim.

Rogéria: é uma questão de empoderamento – ainda que a gente, hoje, não goste dessa palavra, porque queremos relações igualitárias, e não novas formas de poder. Rogéria, é uma mistura daquele confortável sentimento de estar entre os seus (no caso, as suas) e uma necessidade imensa de enfrentar o mundo com suas próprias armas. Era legal estar do outro lado do vidro do estúdio de vez em quando. Era legal ver a cara de espanto dos caras quando saíamos do estúdio. Era meio constrangedor e esquisito ver que alguns deles iam aos shows só porque éramos uma “banda de meninas”. Mas, no fundo, dava uma sensação boa de estar, de alguma forma, desafiando as normas da cena. É claro que a pressão era imensa, tanto em “não fazer feio”, afinal, você é a única garota por ali, quanto em ter que “fazer bonito” pra uma platéia de marmanjos que, inevitavelmente, iria nos chamar de “gostosas” entre uma música e outra.

Quando eu comecei a tocar, já tinha o Bikini Kill, o Team Dresch e o Dominatrix. Mas ainda não tinha a Pitty na televisão – e que pena que, ainda hoje, praticamente só tenha a Pitty e umas outras duas. Quando comecei a tocar, a Malhação ainda se passava numa academia e calça apertada ainda era coisa do Axl Rose.

Rogéria: montar uma banda de meninas é uma questão de auto-organização. Hoje, depois de ter ajudado a construir o  Maria Maria, em 2006, e militando organizada na Marcha Mundial das Mulheres desde 2007, concluí, entre um cafezinho e outro, que meu primeiro coletivo feminista, na verdade, foi a Big Hole.

Primeira formação da Big Hole, 2001

 

Esse texto é pra Clarice, pra Raquel, pra Carla, pra Tamime e pra todas as outras que vieram depois de 2001.

Brigada. 🙂