Por que as meninas montam bandas só de meninas

Publicado: novembro 7, 2010 em riot grrrl

Quando apresentei meu trabalho de conclusão de curso, sobre o Festival Mulheres no Volante, uma das (três) professoras da banca, a Rogéria, me perguntou por que as meninas montam bandas de meninas. Ontem, no curso de formação feminista da SOF, enquanto discutíamos auto-organização das mulheres, essa pergunta, de repente, me voltou à cabeça. O legal de militar, cotidianamente, no movimento feminista, é que sempre temos umas epifanias e umas ideias loucas no meio das discussões. E o mais legal é que às vezes colocamos essas ideias em prática – mas nem é disso que vou falar aqui…

Big Hole no MnV 2008

De repente,entre um gole e outro de café, me vieram uns flashes da Big Hole, minha primeira (e, por muito tempo, quase única) banda. 🙂

No auge dos meus 15 anos, o filme do Runaways ainda não passava no cinema, e tocar guitarra era algo extremamente enfrentador, principalmente dentro da minha própria casa. Na rua, não era diferente… Em 2001, enquanto a Marcha Mundial das Mulheres se articulava como um movimento social radical anti-capitalista e anti-patriarcal, as poucas meninas da cena roqueira de Juiz de Fora ainda eram, em sua maioria, as namoradas dos meninos que tocavam em bandas, que organizavam shows e que tinham livre entrada e saída em casa. No pós-riot grrrl, as meninas que iam aos shows, quando não eram amigas dos meninos das bandas, eram tietes ou tímidas amantes do rock´n´roll – essas últimas sempre foram minoria.

Aos 15 anos, ter uma banda só de meninas sempre me pareceu a coisa mais natural. Acho que, na época, parecia apenas a coisa mais massa de se fazer. E era mesmo muito massa sair com as minhas amigas da banda (e com as que vieram a se tornar minhas amigas por causa da banda), rir de tudo e de todos e não depender mais dos meninos pra fazer a maioria das coisas. Talvez nunca tivéssemos pensado conscientemente sobre isso, mas hoje, quase dez anos depois, as coisas nunca fizeram tanto sentido pra mim.

Rogéria: é uma questão de empoderamento – ainda que a gente, hoje, não goste dessa palavra, porque queremos relações igualitárias, e não novas formas de poder. Rogéria, é uma mistura daquele confortável sentimento de estar entre os seus (no caso, as suas) e uma necessidade imensa de enfrentar o mundo com suas próprias armas. Era legal estar do outro lado do vidro do estúdio de vez em quando. Era legal ver a cara de espanto dos caras quando saíamos do estúdio. Era meio constrangedor e esquisito ver que alguns deles iam aos shows só porque éramos uma “banda de meninas”. Mas, no fundo, dava uma sensação boa de estar, de alguma forma, desafiando as normas da cena. É claro que a pressão era imensa, tanto em “não fazer feio”, afinal, você é a única garota por ali, quanto em ter que “fazer bonito” pra uma platéia de marmanjos que, inevitavelmente, iria nos chamar de “gostosas” entre uma música e outra.

Quando eu comecei a tocar, já tinha o Bikini Kill, o Team Dresch e o Dominatrix. Mas ainda não tinha a Pitty na televisão – e que pena que, ainda hoje, praticamente só tenha a Pitty e umas outras duas. Quando comecei a tocar, a Malhação ainda se passava numa academia e calça apertada ainda era coisa do Axl Rose.

Rogéria: montar uma banda de meninas é uma questão de auto-organização. Hoje, depois de ter ajudado a construir o  Maria Maria, em 2006, e militando organizada na Marcha Mundial das Mulheres desde 2007, concluí, entre um cafezinho e outro, que meu primeiro coletivo feminista, na verdade, foi a Big Hole.

Primeira formação da Big Hole, 2001

 

Esse texto é pra Clarice, pra Raquel, pra Carla, pra Tamime e pra todas as outras que vieram depois de 2001.

Brigada. 🙂

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comentários
  1. Saulo disse:

    Toca Big Hole!

    |_|

  2. André disse:

    Na época eu queria ser mulher pra tocar no Big Hole. (:

  3. André disse:

    E você tá escrevendo lindamente, hein. (:

  4. […] bando mais babaca da faculdadeRebeca (“every girl is a riot grrrl”)Um par de coxas, por favorPor que as meninas montam bandas só de meninas 140 […]

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