Liberdade, Igualdade e Sexo

Publicado: novembro 18, 2010 em outras, riot grrrl

Entrar numa loja de instrumentos musicais é sempre uma aventura extremamente desagradável – pros seres humanos do sexo feminino. Isso nem é nenhuma novidade pra mim, inclusive já falei sobre aqui, mas não deixa de ser uma experiência exótica a cada vez…

Estava indo assistir ao Festival Mix Brasil, que tem como slogan Liberdade, Igualdade e Sexo, e, como havia perdido a primeira sessão, aproveitei para fazer um corre na Santa Efigênia.

– Oi, tudo bem? Queria ver encordoamento pra guitarra…
– Você sabe a marca, a numeração..?  Não, né? (risos)

Para espanto do ser humano do sexo masculino de trás do balcão, a ser humana do sexo feminino do outro lado até sabia… E, na real, essa é a coisa mais básica de saber quando se está comprando cordas. Tentei não pensar em feminismos e afins naquele momento. Não queria perder a sessão seguinte também. Mantive a serenidade para prosseguir rápido com a compra. Mas eles não tinham a numeração da marca que eu queria, então fui obrigada a trocar mais algumas frases com o mocinho, que logo me interpelou novamente.

– É pra você?

Eu acho que ele, secretamente, desejava que eu respondesse apenas “não, vou dar de presente pro meu namorado” ou algo do tipo… Mas, quando finalmente tive que dizer “é… é pra mim”, o mocinho constrangido mudou a tática.

– Você tem banda? É só de mulher?

Eu juro que tento entender por que quando a primeira pergunta é dirigida a uma mulher, a segunda pergunta torna-se inevitável. No post anterior, estava falando sobre como é legal ter uma banda só de meninas… O problema é quando isso passa a ser tipo uma norma, sabe? Como diz a Cris do Drama Beat: “Sempre que perguntam qual o som da nossa banda, alguém responde ‘ah, é uma banda de meninas’”. Pra mim, isso é mais uma forma de desqualificação. Será que as pessoas que fazem esse tipo de comentário já pararam pra pensar que, de repente, seria legal que as meninas pudessem estar no meio musical sem receber esse rótulo?

Daí, quando olho pro cartaz do próximo show da minha própria banda, e quando lembro que, quando finalmente voltei pra sessão de curtas do 18º Festival Mix Brasil, 98% da platéia era composta por homens, e 100% dos diretores dos curtas eram homens, essas coisinhas meio que se juntam… E tornam o texto anterior bem mais atual do que muita gente deve ter pensado quando leu. E tornam impossível não pensar na tal da Divisão Sexual do Trabalho (reprodutivo versus produtivo)… E então, quando me dou conta, já se tornou impensável não pensar em feminismos.

– Qual o nome da banda? Qual o estilo? É só uma guitarra? Existe há quanto tempo? Vocês tem CD? Pô, grava um CD pra mim e passa aqui na loja depois pra deixar?
– Aham, Cláudio.

Ainda na dúvida sobre qual das duas reações foi pior, tomei uma decisão. Da próxima vez, vou dizer que é pro meu namorado mesmo. Assim evitamos constrangimentos mútuos.

 


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