Sempre ela(s)

Publicado: dezembro 16, 2010 em outras

Domingo passado, um amigo me mostrou a revista Rolling Stone deste mês. Passei pelas primeiras páginas e dei logo de cara com essa publicidade(?) da Devassa.

Páginas 6 e 7 da revista Rolling Stone deste mês (edição 51, dez 2010)

Não consegui nem ler a revista. Tirei uma foto da propaganda, tuitei e depois postei no Facebook. Várias pessoas retuitaram e compartilharam minhas náuseas. A imagem circulou por várias listas das quais participo. Feministas – sempre elas – escreveram textos em protesto e denunciaram ao CONAR.

“A cerveja Devassa está veiculando uma propaganda em revistas com a ilustração de uma mulher negra altamente sexualizada ao lado da seguinte frase: ‘é pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra’. Essa propaganda está repleta de um discurso racista e machista, que reduz a ‘verdadeira’ mulher negra ao seu corpo. Corpo esse que deve ser magro, belo, cheio de curvas, sensual e que, como sugere a associação produto-mulher, é um corpo objeto a ser consumido. Segundo a propaganda, mulher negra não tem mente, não tem alma, não tem nada além do corpo. A empresa deve ser punida por tal manifestação racista e sexista!” (Bárbara Machado)

Mas ainda não sei se o que mais me enoja é mais esse exemplo de racismo e sexismo explícitos da Devassa, ou se é o fato de tal peça de péssimo gosto estar veiculada em uma revista “descoladinha”.  Acho tudo isso preocupante.

Preocupante também que no Studio SP, do Ale Youssef (é, aquele que foi candidato a deputado federal em São Paulo pelo Partido Verde, “em busca de um novo jeito de fazer política“), a única cerveja brasileira disponível seja a Devassa. Preocupante ainda que no Planeta Terra (pois é, aquele festival ecologicamente correto, que entrega um recipiente pra você colocar suas bitucas de cigarro, que recicla o lixo DURANTE o evento e que emprega mão-de-obra vinda de projetos sociais, sob o slogan “Enquanto você fica feliz por assistir aos shows, eles ficam felizes por ter uma oportunidade de trabalhar”, ou algo assim…) também só vendesse a tal da Devassa. Aí vem o seriado moderninho da Globo que as pessoas acham engraçado. Patrocinado por quem? Por ela – sempre ela. E, de repente, a coisa toda começa a fazer sentido… E aí vem elas – sempre elas – e reclamam de tudo. E, então, vem eles (e algumas delas) dizendo que é tudo a mesma coisa – o que, no fundo, quer dizer que é tudo coisa daquela gente boba, chata e feia, né não?

Só sei que, se tudo der errado, monto a primeira cervejaria feminista. E vai ter muita procura, viu…

 

Assine a petição contra a Devassa aqui:

Petição DENUNCIAMOS – CERVEJA REINCIDE NA DISCRIMINAÇÃO RACIAL E DE GÊNERO

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comentários
  1. Fernanda Estima disse:

    Sempre que vou a um bar e me perguntam, “qual cerveja você quer?”, respondo: uma que não venda bunda de mulher ao invés de cevada! Pois não é que nunca posso tomar cerveja? O próprio garçom, sem graça, afinal não é sempre que aparece uma maluca dizendo que não quer bunda, informa que este critério impede que ele me sirva uma gelada…
    Quando você inaugura sua cervejaria?

  2. […] This post was mentioned on Twitter by ticamoreno, Fernanda Estima and Jéssika Martins , Bruna Provazi. Bruna Provazi said: "Sempre ela(s)" -> textinho novo no meu brógui: http://miud.in/ktu #feminismo […]

  3. […] Mas a agência é tão “boua” que conseguiu mijar fora do penico. A mensagem que estampa a revista Rolling Stone deste mês é claramente racista, […]

  4. Sami disse:

    Quanta bobagem. Tempestade num copo d’água.

  5. Bethania disse:

    O próprio nome da marca sugere uma pitada de “sacanagem” em suas propagandas.
    Acho que o que talvez você – e muita gente – desconheça é que a Devassa também possui as cervejas “Loira”, “Ruiva” e “Morena” e todas elas são tratadas da mesma forma, sob o conceito “devasso” da marca. Sou NEGRA e não aguento mais esse povo que acha que tudo é racismo e não vai se informar sobre o que está falando. Enquanto nos tratarmos como diferentes, o racismo acontecerá contra nós. Aqui na Europa, onde estudo, existem pessoas que jogam pedras, batem nos estrangeiros. Isso é racismo. Como disse o Sami, “Tempestade num copo d’água”… E eu sinto vergonha desses conceitos arcaicos que os pretos usam pra se fazerem “respeitar”…

  6. brunaprovazi disse:

    Bethania, o fato de existir uma “loira”, uma “ruiva” e uma “morena” é parte do problema, e não uma solução, como você sugere. Essa tal “pitada de ‘sacanagem'” é sexismo, é machismo, e nós feministas somos contra essa mercantilização do corpo das mulheres. Esse conceito é extremamente atual, basta olhar pras propagandas de cerveja, de sandálias, de produtos pra casa, e tantas e tantas outras.

    Como se não bastasse essa exploração do corpo da mulher, em geral, ainda vem a Devassa fazer alusão ao racismo, através dessa imagem sexualizada da mulher negra.

    E não precisamos nem ir tão longe pra endender o que é discriminação… Basta olhar as estatísticas de violência contra a mulher no Brasil. No país do futebol, do samba e da prostituição, a cada 15 segundos uma mulher é espancada – na maioria das vezes, por homens com quem mantem ou mantinham relação.

    A publicidade (e os meios de comunicação) não constroem a violência sexista, mas, certamente, legitimam-na.

  7. tete disse:

    Nada a ver, entender a propaganda como machista ou racista, o unico que quer dizer que a negra tem um corpo escultura abençoado, e que aos homens isso é muito bom!!!! É para dizer as negras que elas estao muito bem fisicamente.
    Podia ter sido uma publicidad com um negro gostoso, ou com um modelo tipo paulo zulu, mas o publico masculino é o que mais consome cerveja e ainda os homens sao atingindo por este tipo de publicidade, por isso que as utilizam.

  8. carol disse:

    Oi Bruna, parabéns pelo blog e pelo protesto. Pena q grande parte das pessoas q tem passado por aqui, não consegue entender a gravidade do problema.

    Cada vez mais as pessoas tem achado mais ‘natural’ essa mercantilização do corpo das mulheres. E é lamentavel essa aceitação das próprias mulheres, que acham q criticar essa imagem vendida da ‘mulher brasileira’ é fazer tempestade em um copo dágua e que violencia e discriminação só acontece na forma física.

    hahahha, e francamente, a questão n é enteder a msg como machista ou sexista. A propaganda é machista e sexista. O proprio comentario da ou do individua (o) que quis excplicar usou um comentario altamente machista.

    ” o unico que quer dizer que a negra tem um corpo escultura abençoado, e que aos homens isso é muito bom!!!! É para dizer as negras que elas estao muito bem fisicamente.”

    ‘Corpo escultural abençoado’ Ham!??! Pra que mesmo? Pra quem? Isso era um elogio às negras, ou um agrado aos homens? Francamente. Deu até preguiça de explicar.

  9. […] pouco tempo, denunciamos o racismo/sexismo propagado pela Devassa, através de uma peça publicitária veiculada na revista Rolling Stone. Infelizmente, sabemos bem que a mercantilização do corpo da […]

  10. […] é só a publicidade machista que nos incomoda nessa cerveja, mesmo eles insistindo em reforçar machismo e racismo sem nem pensar duas […]

  11. Kely disse:

    Eu não sei o que é pior as propagandas da devassa, da skol, da antartica ou se são as mulheres e homens que nunca acham nada de mais nessas grandes propagandas machistas, misoginas

  12. […] posts O Quarto do Poder (Pela censura ao “humor” que nos censura)Sempre ela(s)Poly Styrene e a invisibilidade das mulheres na músicaSobre periguetes e feministas (ou sobre a […]

  13. marianne disse:

    Pra mulheres que não veem problema nessa publicidade:
    A mesma sociedade que educa homens/ publicitários machistas é a mesma sociedade que educa mulheres que não conseguem mais entender o que é discriminação e machismo! O preconceito se dá em pequenos detalhes como um anuncio de cerveja idiota ou como um idiota que espanca mulheres!! Abram os olhos!! Liberdade sexual já!

  14. […] um novo nicho mercadológico. De fato, o mercado parece cuspir na nossa cara quando nos oferece a cerveja da mulher negra (e não “para a mulher negra”, até porque o mercado nem mesmo enxergou ainda que mulher bebe […]

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