Festa de debutante riot

Publicado: janeiro 12, 2011 em riot grrrl

Show de 15 anos do Dominatrix no Outs (09/01/11)

Quando a quantidade de meninas de camisetas brancas e cabelos repicados for maior que a de meninos de calças rasgadas na sinuca mais próxima, na Augusta, não tenha dúvidas: compre seu ingresso pra balada, entre e reserve seu lugar. Vai começar mais um show do Dominatrix. Se você for menino, comporte-se. Nem pense em passar a mão na bunda das meninas no mosh, tampouco em furar a fila do banheiro. Se você for menina, acotovele-se na frente do palco e sinta-se livre para beijar suas amigas sem medo de apanhar (ou de ser assediada pelo straight guy hardcoriano ao lado). E sorria. Estamos em 2011, e o Dominatrix faz parte da pequena revolução que trouxe isso pra vocês.

“Boa noite a todos… e a todas”. O público correspondeu: “Isabe-lla! Isabe-lla!”. Com um sorriso nos lábios, a mocinha de saias e presilhas observava surpresa:“Vocês me conhecem?”. Eu também estava. No último domingo, o Outs estava especialmente lotado, sobretudo de garotas que pareciam estar debutando junto com a banda. Já eu, fazia parte da outra parte do público, a que brindava, nostalgicamente, o debute de seu primeiro affair com o universo do riot grrrl. Além de nós, também transitavam por ali figuras lendárias da cena, como Eliane Testone (ex-Dominatrix, Lava, Hats e Repentine), Elaine Campos (Abuso Sonoro), Nessa (TPM) e, provavelmente, várias outras que não cheguei a conhecer na Era pré-Fotolog.

Em uma época longíngua, em que o suprasumo hightec era internet discada, e que as cartas sociais ainda eram responsáveis pela maioria dos intercâmbios culturais de fanzines impressos, fitas cassete e resenhas de shows, ser uma menina em uma banda de meninas na arena do hardcore selvagem era – definitivamente – um tabu. E Isabella falava sobre isso para meninas com metade da sua idade. “Na oitava série, ninguém acreditava que Kurt Cobain tinha morrido”.

Num instante, estava novamente em Juiz de Fora, ouvindo o Girl Gathering, o Self Delight e o Beauville até furar, numa tarde ensolarada qualquer. Lia e relia cartas de amigas de Florianópolis, com suas impressões de shows que haviam assistido, enquanto imaginava como seria escutar cada um daqueles CDs ao vivo. Depois disso, fui a vários shows – tantos que já não conseguiria contar. Mas ver a formação clássica ali, em ação, tornava aquela noite toda especial. Configuração perfeita: o power trio (Elisa, Débora e Isabella) e Adriessa, atual baixista, fechando com a segunda guitarra. Do canto do palco, a pequena Ara assistia, entusiasmada, à performance da mãe e da tia, junto com seus (também pequenos) tios.

 

Já no início do baile, veio a mais esperada por mim e pela Ara: July 14th. E vieram todíssimas as outras, incluindo as versões acústicas de Redial, Deborah e Betraying, num dueto entre irmãs. Ao final, vieram as do último EP: delírio da geração pós-Altas Horas. No ápice da festa, em meio a dados sobre violência sexista e homofóbica, Vai Lá ganhou contornos de celebração riot: um brinde a Bikini Kill, Bulimia e TPM. A valsa de despedida ficou por conta de Die Die!, e Elisa, finalmente, deu um mosh, atendendo ao pedido ansioso da platéia. Depois de mais de uma hora de show, público e banda completamente molhados: missão cumprida. Hora de deixar o salão.

 

Poucas bandas levaram a mensagem feminista tão a sério por tanto tempo. Talvez o maior mérito do Dominatrix seja o de fazer isso por responsáveis 15 anos. Porém, há pessoas insubstituíveis, e a Débora é uma delas. A outra – ficou claro desde o início do baile – é a Isabella. Vê-la em cena deu sentido a muita coisa (ou deu todo o sentido à coisa). Ao final, quando Elisa me apresentou-a, só consegui resenhar o show em uma frase: “Volta pro Brasil!”.

 

Assista ao show inteiro aqui.

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comentários
  1. […] This post was mentioned on Twitter by Na Lâmina da Faca. Na Lâmina da Faca said: RT @brunaprovazi: "Festa de debutante riot": http://miud.in/lOy #feminismo #dominatrix […]

  2. […] Nos tempos modernos da internet discada, um novo mundo se abria pra menininha de 15 anos que passava madrugadas e finais de semana trocando palavras e músicas com pessoas infinitamente distantes dos quarteirões seguros pelos quais costumava circular. Assim conheci o Sleater-Kinney, através da meia dúzia de músicas que recebi, após dezenas de horas, de minhas amigas virtuais. E aí veio o Dominatrix. […]

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