Somos todas feministas

Publicado: fevereiro 26, 2011 em mercantilização

Revista retrata meninas "passivas" e meninos "ativos".

Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas pra fazerem produção, direção de arte, maquiagem e figurino, e chama os alunos pra fazerem fotografia, iluminação, assistência de direção? Sabe aquele seu amigo videoasta que conhece umas duas ou três fotógrafas boas, mas que acaba chamando sempre um cara que ele ouviu dizer que é bom também pra trampar com ele? Sabe quando sua mãe pede pra você ajudá-la na cozinha ou na casa, por que seu irmão não leva jeito pra isso? Chama divisão sexual do trabalho.

Quando a gente começa a ler um pouquinho, vê que as coisas não são tão por acaso assim… Se você brincar direitinho com seu fogãzinho, suas Barbies e sua vassourinha, vai acabar ficando meio boa nisso. Ou vai se esforçar bastante pra ser. Ou vai ficar bem frustada se, de tudo, não conseguir. Se sentindo meio imperfeita, meio “pouco mulher”, “masculinizada” – como dizem as que aprenderam direitinho e os que gostariam que você tivesse aprendido, pra que eles não tenham que pensar nessas coisas. E no final tudo isso vai gerar um certo mal-estar, que a Betty Friedan já chamava do “mal que não tem nome”. E que a gente já até sabe que tem – machismo.

Essa semana, participei de um debate numa TV de São Bernardo do Campo (SP) sobre jovens feministas. No caminho, o motorista me perguntou qual era o assunto do programa daquele dia. “Mas quem você acha que é mais machista, a mulher ou o homem? É claro que é a mulher!”, concluiu meu companheiro de viagem. A gente já tá bem cansada de entender que as pessoas tem problemas com o rótulo. Fazer o quê se a novelinha da Globo, a Veja e alguns livros de História ensinam assim? Também já estamos cansadas de ter que dizer que – não – o feminismo não está ultrapassado.

Eu não sou feminista por ser uma mulher oprimida, e sim por compreender que essa opressão é coletiva e atinge a todas as mulheres. Então já pode parar com pseudo-contra-argumentos do tipo: “na minha casa é diferente”, “mas fulana é diretora de uma empresa” ou “isso é culpa da própria mulher”.

A apresentadora do programa de TV, que tem até uma postura bem legal quanto ao tema, me perguntou o porquê de ser feminista, ainda hoje e, sobretudo, tão jovem. Citei alguns exemplos mais didáticos de machismo (como a violência que vitima uma mulher a cada 15 segundos), e o fato de estarmos lutando até hoje, no Brasil, por bandeiras lá dos anos sessenta, quando rolou a segunda onda do feminismo (tipo legalização do aborto e direitos sexuais). Aproveitei, claro, pra falar sobre o cenário majoritariamente masculino (e machista) do rock – uma das motivações para a criação do Festival Mulheres no Volante.

Mas sabe o que eu queria ter dito mesmo? Que eu reparei que as mulheres lá no programa faziam a maquiagem, levavam água e limpavam a mesa. E que os homens operavam as câmeras, o som e dirigiam o próprio programa. E que isso tudo não é por acaso, é a tal da divisão sexual do trabalho (de novo). E que, se você prestar atenção nessas coisas e, ainda assim, não entender do que eu estou falando, talvez o seu machismo é que não esteja ultrapassado.

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comentários
  1. […] Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas… […]

  2. Roseane disse:

    Oi Bruna! Muito legal sua matéria. A nossa participação em São Bernardo foi bem interessante né? agente tem vontade de falar tantas coisas mais infelizmente o tempo foi curto.
    Bjs, Rose

  3. Tiely Queen disse:

    Muito bacana esse texto Bruna! Parabéns! Vou indicá-lo para a mulherada do projeto! Bju, Tiely.

  4. brunaprovazi disse:

    Oi, queridas! Obrigada!
    Estamos juntas!
    Beijo!

  5. […] Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas… […]

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