Mulheres em Movimento 2.0

Publicado: março 10, 2011 em mulheres no volante, riot grrrl

O Mulheres no Volante (MnV) é um festival cultural feminista que tem por objetivo inserir as mulheres na sociedade a partir da cultura, incentivando e prestigiando sua produção artística em diversos campos: na música, na literatura, no cinema, na dança, … O festival surge da observação de que as mulheres ainda são minoria no chamado espaço público, ocupando, em grande parte das vezes, postos de trabalho relacionados ao trabalho doméstico e de cuidados da sociedade – até hoje. O MnV vem, portanto, no sentido de contribuir para superar essa histórica desigualdade que reflete-se, inclusive, na arte. Basta olhar para a quantidade de instrumentistas em bandas e produtores de eventos para constatar que esse também continua sendo um meio “masculino”.

No entanto, será que as participantes do festival compartilham dessa visão feminista de mundo? Buscando descobrir se o MnV, de fato, atinge seu objetivo de comunicar o feminismo, entrevistamos as musicistas que se apresentaram durante a segunda edição do Festival Mulheres no Volante (MnV 2.0), em 2008. As entrevistas deram origem ao documentário Mulheres em Movimento 2.0.

 

O título faz referência ao vídeo Mulheres em Movimento (2007), produzido a partir de uma parceria com o coletivo feminista Maria Maria – Mulheres em Movimento, em Juiz de Fora (MG). Nesse vídeo, entrevistamos as organizações de mulheres existentes na cidade buscando investigar qual imagem elas têm do feminismo.

Festival pra quê?

As integrantes das bandas foram questionadas acerca da participação no Festival Mulheres no Volante e se haveria necessidade de existir um projeto feminista, como esse, ainda hoje. Foram levantados pontos como: se elas encontram outros espaços ou se ficam restritas a eventos direcionados a bandas femininas; se consideram que a mulher está em condição de igualdade com o homem; e qual a importância de se realizar eventos como esse.

A maioria dos depoimentos girou em torno da relevância do festival em dar oportunidade/visibilidade para as meninas que estão começando e em servir de vitrine para o público. Foram encontradas, em algumas falas, questões interessantes com relação aos estereótipos socialmente construídos tanto acerca do Movimento Feminista, quanto acerca da feminilidade, como pode ser observado no relato das integrantes da Darandinos de suas primeiras impressões sobre o evento.

Imagem e preconceito

Quando perguntamos “você já sofreu preconceito por ser mulher?”, quase todas as respostas foram negativas. No entanto, todas relataram situações em que foram discriminadas, na cena musical e na família. O fato de seus pais não aprovarem seu interesse pela prática de tais instrumentos (ou sua participação no meio da música), o fato de serem assediadas quando sobem e descem do palco, de serem colocadas sempre na categoria de “banda de meninas”, e de haver poucas garotas na cena são apenas os exemplos mais recorrentes. Esteve muito presente nas falas, também, a relação com a imagem (corpo), ou seja: para ser mulher em uma banda não basta ser uma boa instrumentista, é preciso seguir um padrão estético de beleza.

Somos todas feministas

Se lançarmos o questionamento: “as bandas se identificam (identificam o festival) com o Feminismo?”, a resposta não será uníssona. O que parece implícito na quase totalidade dos discursos é que as bandas se inscreveram no MnV muito mais por conta da visibilidade e da divulgação de seu trabalho, proporcionadas pelo evento, do que devido a uma identificação com a causa. Mesmo que situações de opressão e discriminação tenham perpassado todos os discursos, apenas a banda Biggs abordou a necessidade política de se realizar ações afirmativas como essa. Em oposição a isso, foram encontrados diversos exemplos de reprodução da cultura hegemônica, tais como as referências aos modelos de masculinidade e feminilidade e visões deturpadas acerca do Movimento Feminista.

Para as bandas, é mais interessante participar do Mulheres no Volante por causa de sua mistura de diferentes manifestações artísticas do que devido a seu objetivo de promover a causa. Não há, nessas mulheres, a necessidade consciente de se engajar na luta pela igualdade.

Entretanto, conforme foi constatado nos depoimentos, ao inscreverem-se em um festival feminista, essas mulheres, de alguma forma, compactuam com as motivações de suas organizadoras. Seja em busca de um ambiente confortável, no qual podem trocar experiências com outras garotas; seja em busca de um espaço para mostrar seu som a pessoas abertas a escutá-lo; seja em busca de um palco, nem sempre acessível a elas; as musicistas, ainda que de forma inconsciente e, aparentemente, despolitizada, procuram lutar contra o preconceito e a discriminação que sofrem no cotidiano e, assim, fazem reverberar a causa feminista através de sua própria inserção no festival.

 

Leia o artigo “Empoderamento ou auto-sabotagem? Identidade e representação no II Festival Mulheres no Volante”, apresentado no Intercom Sudeste 2009.

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