Um par de coxas, por favor

Publicado: abril 18, 2011 em mídia, mercantilização

Você é um pedaço de carne! Eu te peguei em um açougue e te usei! Você é gostosa sim, mas é só um par de coxas! Para ser mulher de verdade precisa mais do que ter silicone! O meu casamento é muito mais importante do que você!”, dispara Cortez, humilhando-a ainda mais. 

Natalie se ajoelha, agarra-o pelas pernas e se declara, mas o banqueiro é irredutível. Ele avisa que ela deve deixar o quarto em uma hora, e sai.

Cena que vai ao ar nesta quinta na novela Insensato Coração.

Não, não é literatura de banca de jornal. A citação acima é do capítulo que vai ao ar na próxima quinta-feira (21), na novela das nove da Globo, Insensato Coração. A “notícia” me chegou através de uma lista de e-mails (Blogueiras Feministas) e, como já disse aqui, a gente precisa escrever mais sobre o que se passa na chamada mídia de massas, então resolvi dar meu pontapé inicial.

Pelo que entendi do babado, a Deborah Secco (fazendo o mesmo papel de sempre) estava tendo um caso com o banqueiro interpretado por Herson Capri (Cortez), daí ela gravou os dois fazendo sexo e mandou a gravação da esposa do cara, o que culminou na cena descrita acima.

"Vivemos em uma sociedade que ensina não seja estuprada ao invés de não estupre".

Talvez vocês estejam pensando que o fato de Cortez ser o vilão da trama justifique a coisa toda, né? Que esse trecho de péssimo gosto do roteiro foi escrito intencionalmente, pra explicitar que o cara é babacão mesmo, né? Mas, olha… Em um país em que se elegem Bolsonaros e atiraram lâmpadas em homossexuais na Paulista, em que se veem, todos os dias, notícias de mulheres assassinadas por ex-maridos/namorados/parentes e continua se achando que foi um “caso isolado” ou que, provavelmente, “ela mereceu”, acho que não dá pra passar batido assim, não. Vocês lembram quando o ex-BBB Marcelo Dourado disse que “hômi não pega AIDS transando com mulher” e a Globo botou um simples quadrinho de aviso do Ministério da Saúde do tipo “pega, sim”? Daí o CQCista dá voz a quem?? Ao Bolsonaro. E cadê o Jean Wyllys pra contra-argumentar? Cadê o direito de resposta e de representação na televisão que é concessão pública?

Daí aparece a Deborah Secco apanhando no horário nobre e a galera acha normal: “é periguete”. Afinal, pra quem divide as mulheres em #putas e #santas, bate nas #putas e segura as #santas em casa, um tapinha não dói. Ainda mais se for um tapinha entre duas mulheres. Ou vocês ainda não repararam que toda novela da Globo tem duas musas se estapeando? Normal… Alguém ainda acredita em amizade feminina? Ah, tá… Homens se xingam na cara e falam bem uns dos outros pelas costas / mulheres se elogiam, só até que virem de costas. Quem nunca recebeu um desses e-mails sexistas? Quem nunca riu dessas piadas em um programa de tevê?

A mídia não constrói valores, nem visões. No entanto, ajuda a legitimar determinados preconceitos e comportamentos quando dá visibilidade a alguns poucos e deixa sem voz os outros muitos… quando deixa você achar que a sua opinião é minoria e acaba silenciando-a pela da maioria…

A tal da solidariedade entre as mulheres com certeza não é pauta no jornal diário, muito menos vira cena de novela. Mas ela existe, ainda que a artchy não queira representar a diversidade da vida.

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comentários
  1. Kathleen Hanna disse:

    “Vivemos em uma sociedade que ensina não seja estuprada ao invés de não estupre”.
    Vale lembrar que em inglês não tem gênero, então a sua tradução é completamente sexista. Muito bonito.

  2. fergs disse:

    Teve um MUITO pior outro dia nessa mesma novela (que eu assisto sim), as mulheres reunidas (inclusive a do banqueiro mencionado acima) conversavam sobre o quanto os homens sempre traíram e sempre irão trair, “pq É ASSIM”. É o tipo de besteira gigantesca que se perpetua de geração em geração, cria conflitos sexistas desnecessários e naturaliza o que é socialmente construído. Me entristece muito. A cena do tapa eu não vou nem comentar pq acho que tu já disse tudo.

  3. brunaprovazi disse:

    Exatamente: “naturaliza o que é socialmente construído”.

  4. Lívia disse:

    Arrazou no texto Bruna! Parabéns!

  5. Juliana Stempozeskas disse:

    A mídia é tendenciosa, sim. E isso é uma forma discreta de afirmar o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de segregação e preconceito. Já repararam que as empresas nunca são responsabilizadas? Estão sempre escondidadas atrás de supostas “opniões pessoais”.

  6. Sintético e profundo. Excelente texto, Bruna. Divulgando em minha página do facebook. Um abraço.

  7. Arney disse:

    O problema é que preconceitos contra os homens A ANDROFOBIA – como vc expressou VEM CRESCENDO ASSUSTADORAMENTE e Nos homens estamos nos organizando pra combater essa BURRICE… Homem NçAO TEM QUE SER MACHISTA COMO A MAIORIA DAS MULHERES QUEREM!!!

  8. israelsassa disse:

    Há muito que ser desconstruído: homem é educado para ser machista e mulher para ser submissa; a polarização chega ao extremo quando explicita-se os resultados desta educação; reativas, as mulheres passam ao combater o machista, e não fazem a discussão certa, ir na raiz da questão de genero, que está na educação e numa relação social que se estabelece entre homens e mulheres com base nesta educação; na minha propria familia eu vejo meus sobrinhos recebendo um tratamento diferenciado, as sobrinhas são as responsáveis no auxilio ou até assumem os serviços domésticos da casa, mas quem faz essa educação na casa é a MAE e não o pai; Um exemplo de equivoco é o de combate ao machista por meios punitivos pós exercicio do machismo via violação da integridade fisica ou da propria vida, aí aplica-se a lei Maria da Penha, porém não há a desconstrução do machismo, só pune o machista, como isso fosse uma opção do homem e não fruto de uma sociedade que educa para isso; Talvez se consiga acabar com o machismo “punindo” o machista, mas é muito mais demorado que EDUCANDO; O senso comum diz “homem é tudo igual”, sendo assim tanto faz estabelecer relacionamento com um ou com outro, dentro dos estereótipos do “Macho ideal” (fisico, cor, renda e até agrecividade) as mulheres fazem suas escolhas dos companheiros, não se pode negar; Se um tapinha não doi na hora da relação sexual, não doi também em outras ocasiões, e muitas mulheres pedem isso aos seus parceiros no momento do coito; Quantos homens são oprimidos diariamente pelas MULHERES educadas pró-machismo? Vamos aos fatos – na infancia/adolescencia qual menino tem mais namorada? Quem namora dez é pegador, quem namora uma é mole e quem não namora ninguém é babaca; Na roda de conversa de MULHERES pró-machismo ouve-se comentários sobre tamanho de penis, sobre fulano ou beltrano que “brochou”, fulano não tem “PEGADA” (agressividade) na hora da relação e tem MULHERES pro-machismo que reclama com o próprio parceiro da falta de PEGADA dele; HOMEM DEVE SER PEGADOR, está no senso comum da sociedade, ele é educado para isso.

    VIOLENCIA CONTRA A MULHER É FRUTO DAS RELAÇÕES SOCIAIS CONSTRUÍDAS POR HOMENS MACHISTAS E MULHERES PRÓ-MACHISMO.

    ENQUANTO AS MULHERES PRÓ-FEMINISTAS CONTINUAREM COMBATENDO O MACHISTA (MACHISMO INDIVIDUAL) IRÁ CORROBORAR COM O MACHISMO SOCIAL (DE HOMENS MACHISTAS E MULHERES PRO-MACHISMO).

    ASSUMINDO O MEU MACHISMO, ESTOU DANDO UM PASSO PARA DEIXAR DE SER.

    • Yume disse:

      Israel,estou feliz( nem sei dier como) por finalmente encontra na web alguém que consebe captar onde está o problema.Eu sempre tentei leva-lo á grupos feministas e sempre fui escurraçadsa/apedrejada por iso,o que tem me dado crises de misoginia( muito pirante,considerando que eu pertenço ao sexo feminino) e forte decepoççao com o movimento como um todo.mais recentemente,encontrei “feministas” justificando pedofilia( só o desejo em si,como se este não bastase para o cara ir a diante) e apoiando pornografia violenta( aquela que prega que nós gostamos de apanbhar e sermos torturadas para gozar),sem valar que defendem funk( aquele “estilo” repleto de músicas misóginas e com apologia á pedofilia e ao incesto).E depois estas mesmas “feministas” reclama do aumento da violência sexual contra nós.Fica difícil.ainda amis que é tabu no movimento feminista reconhecer as mulheres pro-machismo.Estas estão sempre “exercendo seu direito de escolha”.

      Enfim,falta ao feminismo brasileiro rever seus conceitos e sua forma de atuação.

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