O bando mais babaca da faculdade

Publicado: junho 21, 2011 em machismo na academia

[Post publicado originalmente no site Blogueiras Feministas, em 17/06/11.]

Cena do Vídeo: Movimento Estudantil. Edição de Janine Ribeiro Peixoto, graduanda em História/UESC. Clique na imagem para assistir.

Em tempos de “senta que lá vem plano sequência”, o vídeo mais visto da semana não foi nenhuma melôzinha neohippie “bonita, moderna e descolada”. Ao contrário, o mais novo viral espalha espanto e chega a chocar justamente porque escancara uma das faces mais feias, conservadoras e caretas (de parte) do movimento estudantil. Com início, meio e fim, os sete minutos que registram a eleição de delegados ao 52º Congresso da UNE (Conune) na PUC do Rio Grande do Sul assemelham-se a uma versão cinema-universitário-de-baixa-renda (redundância?) de um trecho do roteiro de Amor e Revolução.

O mote do vídeo é a questão da abertura/fechamento estratégico de urnas, prática antiética bastante sutil que impregna parte (PARTE) do movimento estudantil, como forma de permanência/tomada de poder – o que, por si só, já deveria causar a indignação de seus espectadores -, e que ganha proporções estarrecedoramente extremas no caso dos mafiosos da PUC-RS. Mas sua genialidade está em desvelar, no ponto-de-virada do plano sequencia em questão, como que por acaso, assim, bem no meio da trama protagonizada pelo bando mais babaca da faculdade, todo o hall de opressão que ainda perpassa as imponentes catracas do ensino superior.

O narrador se dirige à sala do DCE, do lado de fora da qual muit@s alun@s aguardam para votar. 01:09 de vídeo, ouvimos um berro: “não toque em mim!”. As luzes se apagam. Ouvem-se gritos. A câmera fica frenética. Começa a “Festa de Família” festeniana. “É uma mulher! Vai lá defender a mulher!”. Capangas do bando (seguranças privados do DCE) postam-se na porta, barrando a entrada até que essa é fechada. Alguma coisa estranha acontece do lado de dentro. Os gritos aumentam. As luzes permanecem apagadas. Aos dois minutos, as meninas aparecem jogadas no chão, na porta da sala. As luzes são, finalmente, acesas. Ninguém sabe ao certo o que se passa. Os seguranças nem querem saber. A sala é fechada. Sob os holofotes do corredor e os olhares da câmera e do público, a agressão física dá lugar à verbal. O restante é  show de horrores até o sensacional desfecho da trama: a câmera enfoca as cédulas de votação no chão com o nome das duas únicas chapas concorrentes: [ ] renovação e [x] liberdade. Os créditos não sobem, mas a gente sabe são das gurias que não abaixaram a cabeça pros todo-poderosos-pilantras-de-plantão.

Roda o vê tê!

Sim, segundo depoimento das estudantes, houve violência física/sexual no momento do “blackout“, e não foi a primeira vez em que foram agredidas pelos caras. Nessa maré toda, vieram à tona a ditadura do grupo político (ligado ao PDT) que se mantém no poder do DCE da PUC-RS há mais de vinte anos, e sua caixa-preta de ameaças de estupros e mortes, fraudes e perseguições. Ao que nos conta a mídia alternativa d@s estudantes gaúch@s, tem muito caroço nesse angu aí mesmo. Porém, é preciso resistir ao risco de reduzir todo o debate sobre o causo em torno da condenação única e exclusiva ao bando-web-celebridade.

Longe de ser um espaço ideal, romântico e iluminado, um teatro mágico de camisas xadrez e longas saias estampadas em que a bandeira do amor livre suprime todas as divergências partidárias, longe de ser um estado de suspensão dos valores patriarcalistas que permeiam a sociedade civil como um todo, a universidade ao redor das atas de reunião, cartas-programa e abaixo-assinados revela-se como mais uma reprodutora do “mundo real” machistão lá de fora. É essa realidade que a vivência estudantil sob o véu da lente lilás do feminismo perpassa… E uma passagem rápida por qualquer congresso (seja da UNE ou da tal da Anel), para @s de coragem e anticorpos suficientes, só explicita ainda mais. Falo do ponto de vista de quem passou grande parte (quase toda) da academia em reuniões, plenárias, manifestações e festinhas universitárias, e que sempre vivenciou a opressão que a gente vai aprendendo a ressignificar como coletiva e contextualizada, através da tal lente lilás.

Os cinco anos que separam o momento em que comecei a militar no movimento estudantil do momento em que escrevo estas linhas é uma eternidade, no que diz respeito ao avanço da luta das mulheres nas universidades brasileiras. Uma eternidade tão grande que nela cabe o distanciamento histórico necessário pra que eu possa arriscar aqui qualquer análise tosca sobre esse período tão recente da nossa própria história aberta.

Quando digo que comecei minha militância enquanto feminista dentro da universidade, dentro de um coletivo feminista organizado pra lutar contra a opressão dentro (e fora) do próprio movimento estudantil, não são poucas as pessoas que olham com surpresa e certo grau de reprovação. O típico questionamento “Feminismo hoje pra quê?” alia-se ao “Xura? Mas o que tem de machista lá?”. Rápida e superficialmente, consigo listar algumas das razões pra ser feminista na universidade tanto quanto no mundo real.

– Divisão sexual do trabalho: separação dos espaços masculino e feminino. Meninas, ainda que maioria na base do movimento, ainda são minoria em cargos de direção, na composição de mesas de debate ou mesmo no simbólico momento em que figuraram como fontes jornalísticas, expressando a posição da entidade – seja pro zine da faculdade de jornalismo mais próxima, seja na época em que a mídia de massas quer saber o porquê de invasões de reitorias, atos contra o aumento da passagem de ônibus ou crimes no campus.

– Desqualificação: a ideia de que as meninas entram no movimento pra namorar os barbudinhos de bolsas a tira colo e all star mais descolados do semestre, afinal, política é coisa de macho. Esse pensamento é legitimado pelos estereótipos: menina que fala alto = histérica; que fala baixo = não sabe se impor; que defende suas posições de forma rígida = tá de TPM; que fica com os meninos do ME = vadia; que não fica com os meninos do ME = feminista = feia, mal-comida, sapatão.

– Deslegitimação da luta das mulheres: geralmente utilizados pela esquerda-da-esquerda pra dizer que essa é uma questão secundária e que tod@s seremos livres e viveremos felizes para todo o sempre quando o tal do comunismo chegar. Seu slogan mais comum é o de que “o feminismo divide a classe trabalhadora” (oi?).

– Violência sexista: a violência dos homens contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Demonstração de poder, afinal, elas têm que saber “quem é que manda”. Sintomas: alteração no tom de voz, utilização de palavras de baixo calão (geralmente associadas ao suposto comportamento sexual inapropriado da interlocutora: “sua vadia-vaca-piranha-puta-filha-da-puta-sem-vergonha-e-derivados”), levantamento do indicador e subsequente posicionamento na região próxima ao rosto da mesma, estufamento do peito, danos e maus-tratos a objetos inanimados – principalmente se pertencerem à interlocutora em questão. Fase de consumação da doença: embate físico com consequente prejuízo à integridade física da mulher. Em alguns casos acompanha violência sexual.

Qualquer semelhança com o vídeo mais nojento da semana não é mera coincidência. Depois de colocada a lente lilás, é certamente impossível escrever quaisquer parágrafos sobre o causo ocorrido nessa segunda-feira (TREZE) na PUC-DCE sem passar por essas questões toscamente citadas aí em cima. Impossível também é findar a crítica aos coroneis gaúchos sem admitir que, ainda que em menor(?) grau, as militantes estão sujeitas a esse tipo de opressão, independente do curso, da faculdade e da região. Tão impossível quanto é não admitir que houve mudanças significativas, ainda que insuficientes, neste enormemente breve espaço de cinco anos que consigo vislumbrar.

Ação daMarcha Mundial das Mulheres

Se hoje parece ser cada vez maior o número de barbudinhos que se incomodam em ter opatch “machista” costurado na bolsinha a tira colo, certamente já significa um avanço nosso. Haja coletivos de mulheres estudantes organizadas, haja Diretorias de Mulheres da UNE atuantes, haja até a Dilma e suas ministras lá pra mostrar que a gente pode e que um outro mundo é possível, um dia que ainda não hoje, a gente sabe: o caminho é longo, o feminismo avança e o machismo abunda.

Pra quem quer saber mais sobre o episódio, recomendo:

Texto da Luka no Diário Liberdade:

Depoimento da Tábata Silveira, estudante de Direito agredida.

Nota da Diretoria de Mulheres da Une de repúdio às agressões ocorridas na PUC-RS.

Nota da Marcha Mundial das Mulheres/RS de repúdio à truculência do DCE da PUC, com a conivência da PUC-RS.

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comentários
  1. Eka Alves disse:

    Já tem um tempo que eu leio seu blog, mas não tenho o costume de comentar, mas como gostei do seu ‘parecer sobre o caso’ não pude deixar de parabeniza-la pelo post e pelo blog como um todo. Mt bom!

    ;*

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