O pessoal, o político, o pessoal que estuda a política e o gênero no meio disso tudo aí

Publicado: julho 4, 2011 em machismo na academia

Parte Um

A sala de aula de Pós-graduação não difere muito de uma sala de Faculdade, de Ensino Médio e, se você tiver certo grau de abstração e sensibilidade, não difere muito do Jardim de Infância também. Existe o tipo gente boa, que vai se mostrar um pilantra até o final do curso. Existe o tipo mala, que acredita piamente que está participando de um tipo de “bingo nerd”, e que exige um exercício diário de autocontrole pra que você não atire uma carteira em sua cabeça cada vez que ele completa a frase de um(a) professor(a) – mas a gente sabe que é um cara legal. Existem muitos outros tipos que não vêm ao caso; o assunto aqui é outro. 

Embora sejamos maioria nas universidades brasileiras, no funil da especialização os meninos ainda são maioria – apesar de não terem lá tanta cara de meninos na Pós-graduação. Tomam a palavra com facilidade, geralmente usando um tom de voz acima do comum, principalmente se seu superior, no caso, for uma professora do sexo feminino. Aprenderam direitinho a ter menos medo de errar, pois o espaço da palavra, do pensamento racional, da política, da ciência, dentre tantos outros, é seu habitat “por direito”.

As meninas, “por natureza” mais caladas, pensam um sem-número de vezes antes de levantar a mão, mesmo que saibam a resposta da questão em questão. Se discordam de alguma ideia exposta – calma lá! – é preciso respirar fundo, sob o risco de ser acusada de histérica, de louca, ou, provavelmente, de estar de TPM. Pra não contar as que saem mais cedo pra buscar/levar @s filh@s na escola, ou saem mais cedo porque @s filh@s ainda não têm idade pra ir pra escola. Mas tudo bem, “as mulheres têm a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo”. Em toda turma tem aquela que dá um sabor mais gostoso ao recreio com bolos, bombons, tortas e salgados caseiros que traz pra vender. Nada mais “natural” pra complementar a renda, já que mulher adora cozinhar nas horas vagas – ou nos intervalos da novela. Seu parceiro (quando o tem) não se arrisca a tal empirismo porque, “naturalmente”, não tem jeito pra coisa e, “naturalmente”, ganha mais que ela no trabalho.

Se estivéssemos em uma mesa de bar, assim poderíamos ter apresentado o seminário sobre “Instituições sociais e as dimensões do público e do privado”. Como estávamos, afinal, em um ambiente acadêmico, deixamos o granadismo um pouco – só um pouco! – de lado e falamos disso aí com outras palavras e algumas citações. Se a dupla era formada por mim e pela Tica Moreno, vocês podem imaginar que não teríamos como falar do tema proposto sem falar de gênero. Por isso mesmo, as professoras foram legais com a gente e nos sugeriram um texto base que não poderia ter sido melhor escolhido: “Gênero, o público e o privado”, da Susan Okin. Nem preciso dizer que viramos fãs.

Parte Dois

O artigo em questão pode ser considerado um divisor de águas na vida de quem pretende estudar, de alguma forma, a política. Susan Okin fala sobre a crítica feminista à teoria política a partir dos conceitos de esfera pública e privada, que têm sido centrais no pensamento político do Ocidente, ao menos desde o século XVII.

O que quer dizer que qualquer pessoa que fosse apresentar esse seminário com uma perspectiva mais igualitária de mundo deveria, necessariamente, falar da questão de gênero também. 🙂

“Gênero, o público e o privado”

Em linhas gerais (e de forma bem tosca e simplificada por mim), ela diz que, na teoria política em geral, “o privado” é usado para referir-se a esferas da vida social nas quais a interferência na liberdade precisa de uma justificativa especial. Já o “o público” é usado para referir-se a esferas vistas como geralmente mais acessíveis. Na visão desses teóricos políticos, a família, por exemplo, não é política – “em briga de marido em mulher, ninguém mete a colher”.

Já segundo a teoria feminista, a vida doméstica (pessoal) e a vida não-doméstica (pública) não podem ser interpretadas isoladamente, o que significa que grande parte da teoria política liberal precisa de uma revisão profunda. Tem tudo a ver com o slogan da segunda onda do feminismo “o pessoal é político”, que nada mais é que ressignificar e politizar o cotidiano, e entender que existe uma estrutura de poder por trás do que, até então, era visto como “natural”.

Da mesma forma, a família patriarcal é uma estrutura de poder. Não existe uma linha tão demarcada entre a esfera pública e a privada. Elas não podem ser assim separadas, pois não são suficientemente diferentes a ponto de o público (ou o político) poder ser discutido de maneira isolada em relação ao privado (ou pessoal).

Assim como exemplifica Susan, não há como explicar, sem recorrer a fatores não-domésticos, aspectos como: a segregação e a discriminação sexuais correntes na força de trabalho, a escassez de mulheres nas altas rodas da política e a pressuposição estrutural de que trabalhadores e ocupantes de cargos políticos não são responsáveis por cuidar das crianças.

Estudos feministas em várias áreas criaram a categoria “gênero”, fundamental pra gente entender que o “ser homem” e o “ser mulher” na sociedade é uma construção social, assim como os papeis tidos como naturalmente “femininos” e “masculinos”. Impossível falar sobre isso sem lembrar da frase que abre a obra clássica da Simone de Beauvoir:

Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. (Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”)

Ou seja, se o gênero é construído socialmente, a dicotomia público/privado também o é. Da mesma forma, é impossível discutir o público e o privado sem falar da tal da divisão sexual do trabalho. Já falei sobre isso aqui no blog, num artigo chamado “Somos todas feministas”:

Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas pra fazerem produção, direção de arte, maquiagem e figurino, e chama os alunos pra fazerem fotografia, iluminação, assistência de direção? Sabe aquele seu amigo videoasta que conhece umas duas ou três fotógrafas boas, mas que acaba chamando sempre um cara que ele ouviu dizer que é bom também pra trampar com ele? Sabe quando sua mãe pede pra você ajudá-la na cozinha ou na casa, por que seu irmão não leva jeito pra isso? Chama divisão sexual do trabalho.

(https://brunaprovazi.wordpress.com/2011/02/26/somos-todas-feministas/)

Pra gente do movimento feminista, esse é um debate central pra entender muito das desigualdades ainda existentes entre homens e mulheres. E às vezes precisamos de outros meios, que não só textuais, pra falar sobre isso. Daí, quando pensamos que os únicos vídeos que tínhamos pra trabalhar esse assunto eram os cláássicos (e óóótemos) “Acorda, Raimundo” e “Gênero, mentiras e videotape”, resolvemos, na SOF, gravar o documentário “Mulheres Invisíveis”. É claro que o vídeo não dá conta de tudo – aliás, o objetivo é produzir mais vídeos! -, mas ele ajuda a fazer esse debate de uma forma mais didática e atual. Segue.

 

Como o vídeo mostra, essa situação não mudou muito hoje, não:

As mulheres, apesar de algumas transformações recentes e muito comentadas que ocorreram entre as elites, estão ainda concentradas nas ocupações que são mais mal pagas e desprivilegiadas. Esse fato torna economicamente ´racional´, em muitas famílias, que as mulheres sejam responsáveis pela criação das crianças, o que mantém todo o ciclo de gênero em curso. (Susan Okin)

Outra questão abordada no texto é que:

Desde os princípios do liberalismo, no século XVII, tanto os direitos políticos quanto os direitos pertencentes à concepção moderna liberal de privacidade e do privado têm sido defendidos como direitos dos indivíduos.

#Significa que o que entendemos, por vezes, como “direitos”, foram criados para dizer respeito aos direitos de homens: adultos, chefes de famílias, brancos, heterossexuais e ricos. E a forma de garantir o direito desses homens era garantindo o exercício de seu controle sobre os outros (mulheres, escravos, crianças,…) na esfera privada.

Linguagem sexista

Da mesma forma, não dá pra falar em equidade de gênero usando uma linguagem sexista. A Susan também fala sobre isso no texto.

No passado, os teóricos políticos usavam explicitamente termos masculinos de referência, como ‘ele’ e ‘homem’. Em geral, ficava claro que seus argumentos centrais eram, de fato, sobre chefes de família masculinos. Esses argumentos têm sido lidos, frequentemente, como se eles dissessem respeito a todos nós, mas interpretações feministas dos últimos quinze anos ou mais têm revelado a falsidade desse suposto ‘adicione as mulheres e misture’. (…) Em grande medida, a teoria contemporânea, como o passado (ainda que de maneira menos óbvia), é sobre homens que têm esposas em casa.

Então já pode parar de usar “homem” pra fazer referência à humanidade e ao ser humano, né, gente?

O que queremos as mujeres

Quando abrimos pras intervenções, uma cena rara na sala de aula: todas as mulheres levantaram as mãos. Queriam compartilhar outras referências sobre o assunto, dialogar com os conceitos expostos e ressaltar que é preciso sempre fazer o recorte racial – com o concordamos, aliás. Os homens também quiseram debater, de forma saudável e fraterna. Ao final da apresentação, as colegas vieram nos parabenizar. Quando voltei para o trabalho e abri minha caixa de e-mails, já havia vários deles pedindo as referências citadas, o link para o vídeo da SOF (do qual passamos um trechinho, afinal, foi feito pra isso!) e agradecimentos.

A divisão sexual do trabalho, assim como o feminismo, em todos os seus aspectos, atinge diretamente as mulheres, nos toca, porque fala do nosso cotidiano e mostra o quanto existe de político em todas as dimensões das nossas vidas.

Como bem fala a Susan, um dos nossos desejos é a desnaturalização dos “papeis sociais”:

Nós devemos ter como objetivo uma sociedade em que homens e mulheres dividirão, como iguais, a criação dos filhos e outras tarefas domésticas que o pensamento político hegemônico presumiu explicitamente, e continua implicitamente a presumir, por meio de seu silêncio sobre as questões de gênero e sobre a família, serem ‘naturalmente’ pertencentes à mulher.

Se vocês chegaram até o final deste texto, talvez já seja um bom sinal. 🙂 

————————————————–

“Gênero, o público e o privado” – Susan Moller Okin

http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n2/02.pdf

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comentários
  1. Marcel@ disse:

    Bom texto, desde que não se considere que a série de situações levemente caricatas enumeradas acima (um teórico que ainda insista em falar “homem” e não “ser humano”, o professor de cinema que divide as funções do filme por sexo, etc.) já não tenham e continuem mudando. Embora, como bem aponta o próprio texto, infelizmente essas transformações ainda sejam restritas a uma elite dita progressista.

    Mas o que de fato não consigo concordar é com o ponto de partida do SLOGAN – ótima observação! – do feminismo da segunda onda, de que “o pessoal é político”. Sou feminista, mas não tenho o que concordar com a segunda onda. Já cansei de ver variantes mais extremas dessa corrente (e do tal slogan acima) culminarem em tentativas de patrulhamento de consciências digna de um 1894 (Orwell). Obviamente esse texto não chega a esses extremos (não vou nem perguntar qual a opinião da autora sobre assuntos mais delicados, como pornografia), mas percebo alguns reflexos – por exemplo, uma constante subestimação da sociedade atual, pra insistir que o problema da desigualdade dos gêneros ainda está na representação de papéis, como se ainda estivéssemos nos anos 50.

    O pessoal (sobretudo em suas esferas mais íntimas e psicológicas) NEM SEMPRE é político.

    • brunaprovazi disse:

      Marcel@, infelizmente, as situações citadas no texto foram inspiradas em cenas que observei ou vivi no cotidiano. A divisão sexual do trabalho ainda é uma realidade bastante concreta, que inclusive se articula com o sistema econômico no qual estamos inserid@s. E essa realidade ainda está longe de ser diferente, mesmo entre as elites progressistas. Que dirá, conforme sabemos, nas classes mais populares…

      Sobre o slogan feminista da segunda onda, acho que ainda é bastante atual também, sobretudo se pensarmos na violência contra a mulher, na criminalização do aborto, dentre outras pautas pelas quais ainda lutamos e que, a princípio, eram vistas como questões individuais, pessoais, mas que sabemos que contém relações de poder extremamente introjetadas.

      É claro que avançamos em muitas coisas desde a década de 1960, mas quando penso o quanto ainda precisamos conquistar, sobretudo no Brasil, em relação a essas mesmas pautas, a distância começa a parecer ser bem menor…

      Em quais casos, por exemplo, você acha que o pessoal não é político?

      Abçs!

  2. […] lidos O pessoal, o político, o pessoal que estuda a política e o gênero no meio disso tudo aíPoly Styrene e a invisibilidade das mulheres na músicaMuito além do Cisne BrancoNem vadias, nem […]

  3. […] Provazi fez um relato muito interessante sobre o trabalho que apresentou no mestrado analisando gênero, público e privado. Ela foi além do artigo indicado para a apresentação, relacionando-o não só com política e […]

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