Rebeca (“every girl is a riot grrrl”)

Publicado: julho 18, 2011 em riot grrrl

♥ ♥ ♥ Bikini Kill ♥ ♥ ♥

A história da minha vida e a história da minha entrada no feminismo – assim como a de muitas meninas – se confundem com a história do riot grrrl. Por algum tempo, achei que o problema era só meu, afinal, eu era a única do meu ciclo de amizades que não podia tocar guitarra, que não podia chegar tarde em casa e que não podia um sem-número de coisas que os meninos podiam. Em algum momento, descobri que éramos muitas, e que existiam as palavrinhas mágicas “sociedade-capitalista-patriarcal” pra explicar a coisa toda. No último sábado, no show do Limp Wrist no Centro Cultural da Juventude de São Paulo, comprovei que continuamos sendo muitíssimas, um exército corajoso de riot grrrls rompendo, discreta ou ruidosamente, com a opressão cotidiana que insiste em querer nos silenciar.

Nos tempos modernos da internet discada, um novo mundo se abria pra menininha de 15 anos que passava madrugadas e finais de semana trocando palavras e músicas com pessoas infinitamente distantes dos quarteirões seguros pelos quais costumava circular. Assim conheci o Sleater-Kinney, através da meia dúzia de músicas que recebi, após dezenas de horas, de minhas amigas virtuais. E aí veio o Dominatrix.

O Dominatrix foi definitivo pra mim (nós). Foi quem primeiro me disse, com todas as letras e melodias, que eu não era a única e que um outro mundo, ainda bem distante, era possível. E então – caminho inverso, eu sei – vieram o Bikini Kill, o Bratmobile, o Babes in Toyland, o Heavens To Betsy e todas as outras que a IG me deixava baixar, através dos contatos que fazia nos possíveis precursores das redes sociais como as conhecemos hoje: os canais do mIRC. Ali mesmo, no canal do #dominatrix, fiz amizades verdadeiras e formei parte do meu caráter musical. Conheci uma menina de Florianópolis que não podia tocar guitarra simplesmente porque o pai não queria e conheci várias que iam aos shows do Dominatrix escondidas dos pais. Com elas, troquei cartas sociais, letras de música e CDR-s do Libertinagem. Na plateia masculina, conheci um menino que me presenteou com os (já esgotados) cds do Dominatrix – ele tinha virado fã d´Os Pedrero. Montamos diversas bandas, femininas e mistas, que a distância nunca deixou que existissem.

Rebeca na oficina de pirofagia que a Gabi Veiga (O Teatro Mágico) fez com a Fuzarca Feminista - fevereiro de 2011.

Nesses dez anos, muita coisa mudou na minha vida. E o pouquíssimo que posso ter contribuído pra influenciar no modo de pensar de alguém, nesse meio tempo, veio exatamente por conta disso. E aí veio a Big Hole. Veio o Maria Maria. Veio o Festival Mulheres no Volante. Veio a Marcha Mundial das Mulheres. Veio a oficina de guitarra. Veio o Ladyfest Brasil. E eis que, bem no meio do Ladyfest Brasil, nos veio a Rebeca.

A Rebeca tem 15 anos. Quando a conhecemos, na oficina de batucada da Fuzarca Feminista, durante o LF 2010, ela tinha 13 e já sabia muito bem o que queria da vida. E já era muito mais corajosa do que garotas como eu poderiam ter sido quando descobriram o que queriam da vida. Em sua primeira oficina, ela disse um monte de coisas ousadas, batucou melhor que muitas de nós e ficou. Ficou e tem estado nos rolês com a gente, até hoje, e tem sido uma grande fonte de inspiração (e de invejinha.. rsrs) pra todas nós, que, uma geração mais velhas, já nos sentimos, de certa forma, VELHAS no que ela faz de melhor: desafiar as normas da “terra quadrada sob os pés de uma feminista separatista”.

Pra muitas de nós, o feminismo começou com o riot grrrl. Ou o riot grrrl começou com o que viria a nos tornar feministas. O Limp Wrist certamente também significa muita coisa pros meninos que gostam de hardcore (boys). Mas, naquela tarde, lamentamos o fato de não haver mais meninas tocando em um show tão bacana e tão político. A única menina que subiu ao palco, aliás, foi a vocalista da Pushmongos, da qual nós gostamos tanto que até compramos o cd (por três honestos reais, como manda o “bom-caratismo” da cena underground). E conversamos.

E tivemos um milhão de ideias pra mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo e mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres. Porque a Rebeca sou eu com 15 anos, é a Katheleen Hanna, a Tobi Vail, a Corin Tucker, a Carrie Brownstein, a Allison Wolfe, a Joan Jett, a Donita Sparks, a Bianca Martim, a Kat Bjelland, … E exatamente por saber que não é a única, e por achar que não precisa ser assim com todo mundo pra sempre, a Rebeca vai tocar bateria, vai escrever letra de música, montar banda, fazer stencil, distribuir fanzine, montar coletivo, dar oficina e vai fazer seu próprio festival. Porque, como diz o Dominatrix, “riot grrrl will never die / every girl is a riot grrrl / (stop boys violence)”.

Posts que têm a ver:

Por que as meninas montam bandas só de meninas

Mulheres em Movimento 2.0

A japinha, as baquetas e as bonecas (Comparando instrumentos – parte dois)

Liberdade, Igualdade e Sexo

Poly Styrene e a invisibilidade das mulheres na música

Festa de debutante riot

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comentários
  1. Viviane disse:

    “SEGUIREMOS EM MARCHA UMAS PELAS OUTRAS, ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!”

  2. Patrícia disse:

    Rebeca é um ídolo, heim!
    Gostei muito do post!

  3. […] A ideia surgiu em uma conversa depois do show do Limp Wrist, que me inspirou a escrever o texto Rebeca (“every girl is a riot grrrl”), e que talvez tenha ajudado um pouco a inspirar a Rebeca a fazer mais rápido as coisas que ela […]

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