“Liberdade, ou é para tod@s, ou é tudo por nada”

Publicado: setembro 16, 2011 em mídia

A internet às vezes dá essa sensação de que tudo já foi falado sobre todas as coisas por um monte de gente, inclusive a gente mesma. E aí dá uma preguiça imensa de escrever. Mas, como estou menos preocupada com número de acessos do que com (des)arranjos de ideias, às vezes simplesmente não consigo evitar. Na maioria das vezes, escrevo quando deveria estar fazendo outra coisa – geralmente, uma tarefa. Ou quando deveria ter dito ou feito alguma coisa que, pela correlação de forças, por acaso dos acontecimentos ou por pura impotência, não fiz.

Fato é que, dia desses, fui até o Ibirapuera assistir ao debate “Música: a fronteira do futuro – criatividade, tecnologia e políticas públicas”, que tinha como convidad@s: Gilberto Gil, Lawrence Lessig, Manuela d´Ávilla, Sérgio Amadeu, Ivana Bentes, Cláudio Prado, Ronaldo Lemos e Danilo Miranda. Como sugere o título, o debate foi sobre cultura livre, novas tecnologias e sociedade em rede. Juro que fui disposta a escrever o primeiro texto deste modesto blog que não fosse sobre feminismo – embora minha intenção, desde o início, nunca tenha sido escrever sobre qualquer outro assunto aqui. Cheguei razoavelmente cedo, porque anunciaram que a capacidade era de 800 pessoas e que ninguém entraria depois disso. Levei papel, caneta e celular pra fazer a tal da #coberturacolaborativa. Sentei-me bem à frente do palco e, com a respiração aliviada de quem já notara que haveria ao menos duas mulheres na mesa, aguardei o início da atividade.

Cláudio Prado, que na ocasião cumpria o papel de “mediador-provocador”, iniciou os trabalhos daquela noite fazendo referência ao conservadorismo de parte dos gestores públicos, os quais não compreendem a época de mudanças tecnológicas e informacionais em que vivemos – provável cutucadinha na Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, já antipatizada pela galera da cultura digital devido, principalmente, à retirada do selinho do Creative Commons do site do Minc e a seus acenos po$itivo$ pra turminha do ECAD. Ele prosseguiu, fazendo jus ao fato de Gilberto Gil e Manuela d´Ávilla serem exceções, e começou então a comparar a deputada “do futuro” a uma espécie de Arnold Schwarzenegger do Congresso. Referência a qual logo se ocupou de lançar a ressalva: “Tô brincando, viu, Manuela? Você é bem mais bonitinha que ele”. E foi aí que o tema do meu post começou a mudar.

Porque, uma vez que você compreende o que é o feminismo, você passa a não ter desculpas, tanto pra fazer esse tipo de comentário, quanto pra ouvir e deixar que passe batido, sei lá, fingir que não percebeu… De que a Manuela é bonita, talvez pouca gente discorde, mas o mediador do debate se referir dessa forma a uma convidada que estava ali como ocupante de um cargo público é sexista, é político, e não tem como ligar a chave do “vamos-relevar-não-foi-bem-isso-você-tá-exagerando”, não. Ou alguém imagina o provocador conjugando a piadinha no gênero masculino de qualquer deputado que, por acaso, estivesse ali sentado do seu lado? Por que será que a “otoridade” do Gilberto Gil não recebeu gracejo semelhante? Como bem disse a Marjorie Rodrigues no texto intitulado “Jornalismo e punhetação”, numa boa:

Deixa pra bater uma punheta pra ela em casa. Vamos aprender a separar a hora de trabalhar e a hora da punhetação. (http://marjorierodrigues.com/?p=129)

Enfim… Nem mesmo minha aversão ao futebol me permitiria pensar que o jogo estaria definido nos cinco minutos iniciais – embora já houvesse certo indício dos rumos da partida. Então fiz uma pequena anotação, caso fosse necessário relembrar os termos exatos, inspirei e expirei profundamente.

Daí começou a exibição do vídeo “Remixofagia – alegorias de uma revolução”. Com uma linguagem bastante descolada, o vídeo se propõe a abordar a discussão da cultura digital por meio de uma comparação com o antropofagismo brasileiro, através do qual se tornam possíveis processos criativos e colaborativos, sínteses, remixes e reapropriações culturais. Eu estava achando bem massa. Mas aí reparei que, em 15 minutos de edição, a única mulher que aparece falando na tela é a Dilma Rousseff, que, por acaso, ocupa o posto mais alto da política institucional no Brasil, atualmente. No mais, é como se não existissem mulheres se organizando, produzindo (contra-)cultura e se apropriando das novas tecnologias.

De novo, não dá pra achar que essas coisas são por acaso, que são deslizes, ou mesmo que são “pelos feministas em ovo”. Ainda que conquistando sua autonomia e inserção nos processos produtivos, as mulheres continuam invisíveis, mesmo entre os setores que estão hoje buscando uma sociedade mais libertária, mais colaborativa, mais………… LIVRE.

E daí que se a gente não pensar em tudo junto, não vai adiantar de nada essa revolução pós-moderna toda aí, não. É por isso que a gente acha que o debate da música livre, por exemplo, não pode vir descolado do feminismo. Porque…

 a organização da música livre se dá em uma sociedade que ainda exclui e discrimina as mulheres, uma sociedade que é ao mesmo tempo machista, racista e homofóbica. E qualquer iniciativa que a gente tenha nesse mundo, aqui e agora, pode reproduzir, mesmo de forma inconsciente, desigualdades e discriminações que dominam as nossas relações, que são valores hegemônicos.
(http://roupasnovaral.wordpress.com/2011/04/07/um-convite-a-ser-mais-livre/)

Pra completar, só bem na prorrogação (de um debate sobre produção horizontal e descentralizada de informação), resolveram abrir pra interação da plateia. E aí o mediador pediu “ajuda das moças” pra recolher as perguntas ESCRITAS pelo público. Sim, as funcionárias do Ibirapuera, de quem até agora só suspeitávamos da existência pelas jarras de água que desapareciam e reapareciam cheias, agora tinham alguma outra função no andamento da prosa. Sabe o vídeo da SOF sobre a divisão sexual do trabalho (produtivo X reprodutivo)? É isso…

Então não vale também falar de cultura livre, de revoluções em rede, de Marcha da Liberdade ou de Manuel Castells, se a gente não incorporar uma perspectiva verdadeiramente libertária de mundo, que inclua todas e todos, ainda que sob o esforço de desconstruir esses tais valores hegemônicos que permeiam nossas relações mais cotidianas.

Eu escrevo sobre feminismo, assim como milito, na esperança de compartilhar com aquel@s que me leem um pouco sobre as coisas que eu acho que poderiam ser diferentes na nossa vida. Este blog surgiu assim, sem cerimônias e posts de apresentação, motivado pela necessidade catártica de despejar meia dúzia de palavras sobre o caso do goleiro Bruno (acusado de assassinar a jovem Elisa Samúdio, com a qual teve um filho), que representa a violência a qual todas mulheres estão sujeitas, em distintos graus. Aí percebi que não dava mais pra voltar… E, desde então, tem sido mais ou menos assim… um despejo de ideias, confissões (boas e ruins) e pensamentos imperfeitos… ainda que numa frequência bem aleatória que deixa muito a desejar – eu sei. E sei também o quanto o debate do Ibirapuera foi simbólico. E sei o quanto que, mesmo assim, essas coisas passam despercebidas pela maioria das pessoas. E por isso eu volto a escrever, ainda com a sensação de que tudo já foi falado por alguém (inclusive por nós mesmas) em algum momento, em algum lugar da blogosfera, do Facebook, ou mesmo resumido em spoilers de 140 caracteres… mas, sobretudo, com a sensação de que já tem muito mais coisa escrita sobre cultura digital do que sobre feminismo………………………

Eu tô com o Team Dresch:

Freedom is freedom. It´s for all or it´s all for nothing
(“liberdade, ou é para tod@s, ou é tudo por nada”).

Sem revoluções pela metade.

 

Anúncios
comentários
  1. É a segunda vez que me indicam este blog para ler e é a segunda vez que saio com as energias renovadas. Pois vejo que ainda há mulheres que não se cansaram da luta.

    Parabéns e continue sempre despejando idéias, inspirando mudanças e deleitando @s leitor@s.

  2. brunaprovazi disse:

    Juliana,

    putz.. também é sempre muito inspirador pra mim receber comentários assim. 🙂
    Estou passando no seu blog, bem massa!
    Estamos juntas nessa luta! o/
    Abçs!

  3. […] Foi um pouco a impressão que eu tive quando assisti ao debate “Música: a fronteira do futuro – criatividade, tecnologia e políticas públicas”, em setembro deste ano, o qual relatei no post “Liberdade, ou é para tod@s, ou é tudo por nada”. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s