Ocupar as ruas, estourar as bolhas, respirar

Publicado: setembro 25, 2011 em feminismo, marcha mundial das mulheres, mercantilização

Marcha das Vadias tomando as ruas de Campinas. #mexeucomumamexeucomtodas

Saímos de São Paulo na madrugada manhã de ontem, rumo a Campinas, com a tarefa de nos somarmos a mais uma edição da Marcha das Vadias, movimento que, desde maio deste ano, vem ganhando versões regionais por todo o mundo. A internet e as redes sociais têm contribuído para facilitar a comunicação e a dar visibilidade a ações de movimentos sociais que sempre estiveram organizados sob a forma de rede, ao mesmo tempo em que impulsiona o surgimento de novas formas de articulação.

Criada em 2000 e presente, hoje, em mais de 58 países e territórios, a Marcha Mundial das Mulheres é um grande exemplo do quanto nossas demandas feministas são concretas e atingem a vida das mulheres, em diferentes graus, em diferentes lugares por todo o mundo. De forma semelhante, sob o princípio do “pensar global, agir local”, a Marcha das Vadias vem articulando demandas regionais por onde passa, mas, sobretudo, vem demonstrando o quanto o tema da violência sexista continua sendo uma realidade para as mulheres e uma das grandes bandeiras do movimento feminista, hoje.

Em Campinas, o processo de construção da Marcha das Vadias envolveu diferentes movimentos, de partidos políticos a coletivos anarquistas e de arte. Performances e apresentações abriram a manhã de sábado, em frente à Catedral, no Centro da cidade: uma diversidade de elaborações sobre o próprio feminismo que só comprovava o caráter coletivo da organização. A partir dali, seguimos pela rua 13 de maio e, com auxílio de um carro de som, expusemos para a população um pouco de nossas motivações, revelando dados de uma situação que, a bem da verdade, @s campineir@s já conheciam muito bem:

No mês de julho de 2011 denúncias de casos de estupros ocorridos no Distrito de Barão Geraldo-Campinas alarmaram os moradores. A discussão desses casos ajudou a divulgar mais dados: na região de Campinas um estupro acontece a cada 13 horas, o que significa um caso para cada 12,7 mil habitantes. No Brasil, a cada ano, 15 mil mulheres são estupradas.

Diante dessa triste realidade, muitas pessoas se organizaram para procurar soluções e exigir atitude das autoridades. Foi aí que nasceu a Marcha das Vadias de Campinas. Mas, na verdade, ela tinha nascido em outro lugar e já estava correndo o mundo.

 http://marchavadiascampinas.wordpress.com/por-que-marchamos/

Ao final, o microfone foi aberto para que os movimentos presentes fizessem breves considerações. Qualquer militante sente um friozinho na barriga sempre que um microfone é aberto; sempre há o risco imanente da partidarização e apropriação de atos e manifestações… Felizmente, as falas foram todas embriagadas demais do sentimento coletivo que nos unia em prol da luta das mulheres. A sensação de dever cumprido, enfim, abriu o apetite d@s marchantes para o almoço.

 O feminismo (e a Marcha das Vadias) inspira(m) essas construções coletivas e solidárias. Sabemos que as lutas contra a violência sexista, pela legalização do aborto e contra a mercantilização de nossos corpos e vidas só têm sentido se forem para todas as mulheres, e não apenas conquistas individuais de quem pode pagar para abortar em clínicas clandestinas limpinhas, de quem assumiu um alto cargo numa empresa ou mesmo de quem se casou com um cara legal que “até lava a louça”. É por isso que a marcha só tem sentido se for “até que todas sejamos livres”.

 Cada vez que ocupamos as ruas, mostramos a cara e a força do movimento. Cada vez que dialogamos com as pessoas “ao vivo”, ali, no tête-a-tête acalourado do momento, temos uma possibilidade real de convencimento. E cada vez que deixamos indícios, por mínimos que sejam, de que elas não estão sozinhas, mostramos que o tal do outro mundo é realmente possível. Por isso desconfio de revoluções de sofá com fim em si mesmas. A utopia da inclusão digital de nada nos serve, se descolada da realidade. Sabemos que ainda estamos beeeem longe de cibercidadanias – o mundo real é outra coisa. É preciso estourar as bolhas para que possamos tod@s, de fato, respirar.

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Outros posts sobre a Marcha das Vadias neste blog:

Nem vadias, nem santas: livres

A marcha das vagabundas e o machismo dos machos brancos vestidos de preto

Feministas, sim. E em marcha!

vamos marchar (contra todas as formas de violência e opressão contra a mulher)

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