Carta aberta a todas as Mulheres no Volante

Publicado: dezembro 8, 2011 em mulheres no volante

Conheci a Ju Pagu pessoalmente durante o I Fórum da Internet no Brasil, que aconteceu em outubro deste ano, em São Paulo (SP). Antes disso, sabíamos da existência uma da outra apenas através das poucas letras que havíamos trocado, em meio à torrente de mais de cem e-mails diários do grupo das Blogueiras Feministas – articulação de mulheres em rede que, em pouco mais de um ano, já reúne mais de quatrocentas pessoas, de todas as partes do país, e cuja principal ação na internet é o blog coletivo homônimo.

Entre um debate e outro, no breve espaço reservado ao almoço, compartilhamos palavras, imagens e sons arquivados em nossa memória sobre nossa experiência vivida e sobre o que nos move na vida. Dessa identificação profunda, instantânea e sincera, nasceu a parceria para fazer a primeira edição do Festival Mulheres no Volante (MnV) fora de casa.

O MnV é um festival criado em 2007, em Juiz de Fora (MG), como uma resposta à ausência (ou à invisibilidade) de mulheres tocando em bandas e produzindo shows. A proposta de fazer um “festival de bandas femininas” logo se expandiu e, entre debates, oficinas e rodas de conversa, o MnV passou a agregar também diversas outras manifestações artísticas (poesia, dança, artes visuais, performances, …).

O MnV surgiu inspirado no Ladyfest, evento feminista criado na cidade de Olímpia (EUA), e que ano passado completou dez anos de existência, tendo se espalhado por diversos países, inclusive pelo Brasil.

Novas articulações surgem por aqui, tais como o Festival Vulva la Vida (Salvador/BA), que foi um sucesso em 2011 e já tem sua segunda edição agendada pra janeiro de 2012, e o Festival Roque Pense (Nova Iguaçu/RJ), também marcado pro próximo ano – além de iniciativas legais já extintas, tais como o Festival de Punk Feminino (Goiânia/GO).

Nesses quatro anos, fizemos contato e trocamos experiências com mulheres de todo o Brasil que compartilham de nossas inquietações e, principalmente, da enorme vontade de botar a mão na massa pra começar a reverter esse cenário. Ao longo de nossa caminhada, fomos agregando muit@s colaboradoras(es), sem @s quais o MnV jamais seria do jeito que é hoje.

Nós costumamos dizer que queremos mudar o mundo começando pela cultura. Nosso sonho sempre foi espalhar a ideia do feminismo por todos os lugares, e a melhor maneira de fazer isso é em rede.

Vivemos em uma sociedade organizada na forma de rede. A internet permeia nossas relações e transforma o modo como produzimos, consumimos e nos apropriamos da arte e da cultura. A produção e a difusão da música agora independem das grandes gravadoras. A rede inspira processos coletivos e colaborativos, e é dessas novas ferramentas que queremos nos apropriar, criando novas possibilidades de acesso à cultura e criação artística para as mulheres.

Queremos inspirar mais mulheres a “se empoderarem”, a assumirem o volante de suas bandas, de seus festivais e de suas próprias vidas.

O percurso é longo: a discriminação e o acesso desigual das mulheres à (produção de) cultura, à política e ao mercado de trabalho, infelizmente, ainda é uma realidade. Ainda somos responsabilizadas pelo trabalho de cuidado da família e da casa, tendo menos tempo pra nos dedicar a outras atividades. Gastamos em média 25 horas por semana com o trabalho doméstico, enquanto os homens gastam apenas 10 horas. No mercado, somos 57,6%, contra 80,5% dos homens, e ainda recebemos menores salários (em média, R$ 700,88 reais, contra R$1070,07), mesmo tendo maior grau de escolaridade. A violência de gênero espanca uma mulher a cada 15 segundos em nosso país. Apenas 50% das brasileiras está satisfeita com sua aparência física, enquanto 70% dos brasileiros estão plenamente satisfeitos. Nos grandes festivais ao redor do mundo, não é diferente. Em Glastonbury (Inglaterra), as mulheres foram apenas 1/24 do total de artistas a tocarem nos principais shows.

Queremos contribuir para superar essa situação criando uma grande e autônoma rede nacional de mulheres na e pela cultura, respeitando as demandas e especificidades de cada região. Os cenários são parecidos, o sexismo é cotidiano e se repete, mas onde quer que haja mulheres inquietas, haverá maneiras criativas de transformar essa situação.

Caindo na estrada pela primeira vez, saímos da zona da mata mineira com destino ao cerrado brasileiro, rumo a fortalecer a articulação das mulheres na e pela cultura.

E é exatamente por achar que existem mulheres no volante assim como nós, como a Ju e como tantas outras pelo Brasil que queremos inspirar mais garotas a ligarem seus próprios motores. Chamem de Mulheres no Volante, chamem do que quiserem – e chamem a gente pra pegar carona.

É como dizem em Salvador: “vulva la vida, vida la vou eu”.

Vida longa ao riot grrrl!

Vvvvvvvvvvvvvvvrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmm

Bruna

Aliste-se já!

Confira a PROGRAMAÇÃO OFICIAL DO MNV – BSB

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s