O verão e a arte de se emancipar

Publicado: janeiro 10, 2012 em riot grrrl

Se Alisson Wolf pudesse ter colado comigo no rolê desse domingo, ela teria tido mais um sincero motivo pra sorrir desde que estampou as letras R I O T G R R R L no zine que viria a nomear a pequena grande revolução que nos tem inspirado a todas nós, garotas punks, tantos anos e quilômetros adiante. Talvez tivesse se segurado pra não deixar escapar uma ou outra lágrima ridícula dos olhos – como eu mesma tive de fazer – antes de voltar a sorrir, tomar mais um gole de cerveja e trocar ideia com a mina de cabelos coloridos ao lado.

Nesse domingo rolou o segundo evento do coletivo Emancipar, aqui em São Paulo (SP), cujo objetivo principal era arrecadar grana pras meninas participarem do festival Vulva la Vida, em Salvador (BA), este mês. Mas o que realmente está acontecendo, bem no quintal de casa, durante as tardes ensolaradas – embora nunca suficientemente ensolaradas em São Paulo – desse verão, faz parte de um intenso e verdadeiro processo que está pulsando há tempos, e que viria a eclodir, mais cedo ou mais tarde, de alguma forma. Este texto é sobre o processo de emancipação dessas garotas e de reconstrução da cena riot grrrl paulistana, do qual tenho tido o imenso privilégio e prazer de poder participar. 

A cena é cíclica. Quando uma geração tem que arrumar emprego pra pagar as contas, e tem menos tempo ou menos disposição/motivação pra fazer as coisas que costumava fazer, afinal de contas; quando pequenas tretas carregam o ambiente, que costumava ser um festivo refúgio pra todas, dezenas de garotas crescem com carências e demandas semelhantes às que motivaram a criação da cena anterior. Então o ciclo recomeça. A cena se renova.

Foi movidas por esse sentimento de “cadê as minas do rolê?” (como dizem por aqui em São Paulo… rs…) que eu, Adriessa, Helena e Brunella montamos uma banda, no final do ano passado – a qual merece um post inteiro ainda, prometo! – e acredito que sejam movidas por esse mesmo combustível que essas garotas estejam dando seus ousados passos rumo à sua emancipação.

Os dois quarteirões e seis estações que separam minha casa da casa onde rolou a balada do Emancipar foram suficientes pra que algumas ideias soltas pra este texto começassem a se desenhar na minha cabeça. Quando cheguei em casa, abri a segunda edição do zine do Emancipar e – nossa! Ali estavam linhas da nossa própria história, pelas mãos da Rebeca e das outras emancipadas: parte de nossa conversa pós-show do Limp Wrist… referências às bandas das garotas resistentes na cena… ao Festival Mulheres no Volante… e um relato do primeiro evento do coletivo, no qual fizemos um som antes mesmo de termos um nome, porque a mensagem de solidariedade e união feminista estava lá, com o delicioso sabor de “não importa o que vocês façam, nós estamos aqui – e vamos bater palminhas”.

Registro da primeira edição do evento, 03/12/11

De repente, parecia que não havia mais cena riot grrrl em São Paulo. Onde estão as bandas femininas? Onde estão as minas? Manifestações e eventos à parte, no cotidiano da cidade haviam poucos sinais lilases em meio à fumaça respirada com a dificuldade rotineira.

Oficina de guita no 1º evento do Emancipar.

Foi um pouco deste sentimento que inspirou a criação da minha banda nova, que inspirou a criação do coletivo Emancipar, e que vem inspirado essa renovação bonita e espontânea da cena em São Paulo. São novas garotas, partindo da tal da experiência vivida (em suas casas, com seus amigos, na escola, nos shows) como motivação pra colocar sua energia em stencils, zines, bandas, blogs e eventos.

– Vocês tocam alguma coisa?

– Ah, toco um pouco de guitarra e de baixo…

– Comecei a aprender bateria…

– Porra! Então por que vocês não têm uma banda??

Oficina de stencil bombando.

Às vezes, as coisas só precisam de um canal para acontecer. E se você abre um canal, de repente isso tudo começa a se conectar. As meninas começam a aparecer (a “colar no rolê”)… e, de uma hora pra outra, começam a surgir mais bandas, mais pessoas vão aos shows, se conhecem, trocam zines e arrobas (por que não?)… Mais garotas começam a enfrentar a violência sexista, a questionar a divisão sexual do trabalho dentro e fora de casa, a quererem ser super-heroínas, e não mais princesas em um mundinho cor-de-rosa. E toda uma rede cultural feminista está pulsando. Viva. Sincera. De coração.

As mina no skate!

– Não é assim que liga o cabo?

– Me ensina como é, então?

Seu primeiro show não é no festival de bandas da cidade, com juízes cronometrando seu tempo e avaliando sua afinação/presença de palco/ensaio/figurino. Nem mesmo se trata de não fazer feio (porque são as únicas meninas em uma cena masculina) ou de fazer bonito (porque tem uma dúzia de boys te avaliando ali). Em cima do palco, elas nem sempre precisam acertar. A experiência compartilhada transcende escalas pentatônicas e códigos de conduta.

Craudiô!

Os meninos estavam lá, participando discretamente das oficinas, fazendo um som com as minas e brincando de stencil. Mas eles sabiam que elas seriam as protagonistas, desde a mesa de som até a portaria do evento. E eles sabiam exatamente como se portar: nada de piadas machistas e cantadas escrotas. Duas meninas juntas são duas meninas juntas, não adianta xavecar.

Vagina movimento. Oi?

O primeiro passo foi dado em rumo à compra de uma bateria pra um futuro estúdio coletivo para meninas. A ideia surgiu em uma conversa depois do show do Limp Wrist, que me inspirou a escrever o texto Rebeca (“every girl is a riot grrrl”), e que talvez tenha ajudado um pouco a inspirar a Rebeca a fazer mais rápido as coisas que ela acabaria fazendo, de uma forma ou de outra, pelo feminismo, pela vida dela e das garotas que ela conhece, por todas nós.

Banda La Chatte - #ahazo 😉

 A bateria ainda não foi comprada, mas elas arrumaram um lugar bacana pra fazer os próximos eventos. Ainda não dá pra levar todo mundo pra Salvador, mas algumas representantes serão felizardas. Elas sabem que é assim, aos trancos e barrancos, erro e acerto, dando um passo após o outro, que a gente vai contribuindo pra mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo / mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres.

E é embriagada deste sentimento gostoso que começamos 2012, com muitos indícios de que este será um ano definitivo pro feminismo jovem radical no Brasil.

Eu ia começar este texto dizendo como 2011 não foi exatamente um ano lá muito especial pro movimento, mas as exceções que de imediato me vieram à cabeça não me deixariam mentir. Em janeiro, Salvador recebeu a primeira edição do festival Vulva la Vida. Em março, fizemos uma edição lindíssima do Festival Mulheres no Volante, em Juiz de Fora, que não era tão boa assim desde 2008. Foram cinco dias de programação intensa e gratuita, preparada com a colaboração de muita gente bacana que se incorporou ao projeto. Em maio, teve início a onda de marchas das vadias por todo o mundo, começando, aqui no Brasil, por São Paulo. Em abril, o Encontro de Mulheres Estudantes da UNE (EME) movimentou Salvador novamente, reunindo estudantes de todo o país, interessadas em discutir o feminismo dentro e fora do Movimento Estudantil. Em agosto, foi a vez de colocarmos 70 mil mulheres, em Brasília, em luta contra a fome, a pobreza e a violência sexista: foi a Marcha das Margaridas, uma das mais importantes ações do movimento feminista na América Latina. Em outubro, realizamos o I Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, transpondo as barreiras da internet e fortalecendo a articulação feminista também offline. Por fim, já em dezembro, fizemos a primeira edição do Mulheres no Volante fora de casa: foi a vez de ocupar Brasília (DF) e contribuir um pouco pras mulheres darem partida em seus próprios motores por lá.

Estamos jogando sementes… criando espaços de expressão, de troca, redes de contato…

Que a internet venha pra facilitar a difusão de ideias feministas por todo o país. Que a geração que cresceu tendo o Youtube como canal de televisão e o Facebook como ferramenta de articulação política (e sentimental ♥) venha a usar de tudo isso a seu favor. Que a facilidade de circulação de informações, vídeos, músicas possa contribuir, de fato, para o fortalecimento de uma cena cultural que já começa a engatinhar a largos passos.

  Que em 2012 possamos, cada vez mais…

  Resistir! Ocupar! Emancipar!

                                                                                                                                 CONTINUA…

 

 

 

 

Fotos: Dk Moulin

Anúncios
comentários
  1. Luna disse:

    Olha, não vou falar muito pq eu participei da organização desse evento… ia ser muito suspeito. xD

    Belo texto! =’)
    Espero q consigamos mexer e remexer esse cenário!

  2. viviane silva disse:

    Resistir! Ocupar! Emancipar!

    O/

  3. andré disse:

    ❤ eterno.

  4. Rebeca D. disse:

    E eu quase chorei lendo isso aí. Caraca. Fortalecer, agregar, expandir, Emancipar. 2012 promete, ou melhor, o movimento jovem feminista promete a 2012. ❤

  5. Dk Moulin disse:

    Incrível, vincular textos do Coletivo Emancipar num diálogo tão culto, sussinto e sincero pode nos ajudar muito. Amei! Parabéns!! Me atrevo a dizer que, apesar de não ser minha a câmera, as fotos são minhas, eu que fotografei, uma mulher, quero créditos! hahahahhahaha RESISTIR, OCUPAR, EMANCIPAR!

  6. brunaprovazi disse:

    Oi, Dk! Desculpa! Não coloquei os créditos pq essa câmera tava rodando lá (eu também tirei umas fotos com ela, mas agora não sei quais rsrs), então não sabia quem tinha tirado qual. Mas pode deixar que vou colocar agora. 😉 Beijos!

    Valeu, menin@s! É isso aí!

    Vida longa ao riot grrrrrrrrl!!

  7. Eka disse:

    Belíssimo texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s