O trinco

Publicado: março 25, 2012 em mercantilização

“Seu corpo é um campo de batalha”, Barbara Kruger (1989).

Então calhou de ser sexta-feira e a Sarinha resolver dar uma micro-festa na sua casa nova. Naquelas de “saber mais ou menos onde é”, descemos do táxi na rua (que ainda dava mão) mais próxima e seguimos a pé. Por entre altos muros, vigias noturnos e ruas um tanto quanto arborizadas pra São Paulo, repousavam ali, tranquilamente, algumas dezenas de casarões, cercados por uma singela praça quase particular. Longe de todo o caos do trânsito, das filas, e mesmo dos bares cheios de almas tão vazias, e confortavelmente perto da resolução de todas as necessidades da vida de quem dispõe de um veículo próprio (e individual) para tal, estava desenhado ali um pequeno pedaço do paraíso paulistano. Obviamente, reservado. Reservado a pouc@s.

Fomos logo recebidas pelo anfitrião da casa, Joab: um cachorro grande, peludo e – até que se prove o contrário – manso, daqueles que, para constrangimento d@ don@ e das próprias visitas, começa logo a pular e a cheirar a carne nova do pedaço. Mas Sarah não estava constrangida, afinal, em nossa primeira visita, já éramos “de casa”, e o cachorro em questão nem mesmo pertencia a ela. Um pequeno corredor nos levou a uma sala animada por livros, cores e pessoas conversando. Contrastando com o vermelho que forrava o chão, o lilás gritante da parede era um convite àquela noite de diálogos feministas. Instaladas na sala, meia dúzia de portas sorriam em nossa volta, divididas em dois andares, cujo acesso se dava pela escada encaracolada que emergia do centro do cômodo.

O quarto de Sarah era simpático e convidativo. Uma espécie de bangalô, com um jardinzinho onde ela, nas primeiras manhãs na casa nova, usava como ambiente para praticar Tai Chi Chuan – antes de descobrir que havia uma obra na casa ao lado. A iluminação provinha de um interruptor que regulava intensidade da luz entre um jantarzinho romântico e uma tarde de leitura, sem jamais, entretanto, chegar à constrangedora luz de churrascaria. Na porta, havia um trinco. Um trinco não do lado de dentro, mas POR FORA da porta, o qual, obviamente, só podia ser aberto/fechado pelo lado DE FORA. Sarah logo nos explicou: ali costumava ser um “puteiro”. E então começou a falar sobre como deveria ser a vida daquelas mulheres, enquanto nós só conseguíamos pensar que ela precisava tirar aquela merda de trinco dali o mais rápido possível.

Quando algumas pessoas tentam defender a legalização da prostituição, sob o argumento da liberdade sobre o próprio corpo, eu juro que me esforço pra entender. Mas não consigo deixar de ficar com a sensação da liberdade pela metade. E isso não tem nada a ver com ser “contra as prostitutas”. Afinal, o trinco na porta diz muita coisa sobre quem controla quem ali. E, sobretudo, por que será que precisamos colocar um preço em nossos próprios corpos? Que liberdade é essa em que tudo precisa ser mercadoria?

Voltamos pra sala e passamos então à pauta dos últimos dias: 8 de março, nanotecnologia, melões e Amanda Palm. Esqueçam essa tal de Lady Gaga. Camila nos mostrou o clipe da genial “Map of Tasmania”, música na qual Amanda samba na cara da sociedade que enche o corpo das mulheres de mil regras e tabus. E continuamos ali, cercadas por paredes lilases, a compartilhar, confortavelmente, ideias pra mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo / mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres. Mas a imagem do trinco insistia em aparecer.

Passadas algumas horas, usamos de toda a autonomia conquistada nesses anos todos de feminismo para decidir ir embora. Despedimo-nos de Sarah, Joab e dos outros moradores, e saímos. Porta afora, entretanto, as árvores e os vigias, agora amarelados pela luz difusa dos postes, já não nos pareciam tão simpáticos. Andamos, apressadamente, até a avenida mais próxima, até finalmente encontrarmos consolo no primeiro táxi que apareceu, afinal, espera-se que quatro mulheres juntas reduzam consideravelmente as chances das corriqueiras cantadas e abusos de taxistas durante o caminho. Duas de nós desceram e nós outras duas continuamos, em busca de um lugar aberto para comer. Descemos do táxi, rumo a uma lanchonete bacana que permanecia aberta àquela hora da madrugada. Paramos na porta. Paramos. Na porta. Àquela hora da madrugada, a quantidade de homens rindo, falando alto e saboreando sua nova refeição com os olhos nos dizia claramente um monte de coisas, entre elas, que não deveríamos estar ali.

Como a vontade de evitar a fadiga era maior que a fome, demos meia volta em direção ao supermercado mais próximo. Novamente, a rua e os caras que ainda circulavam por ela nos diziam claramente que não devíamos estar ali. Pegamos então outro táxi, mais uma vez esperando que o fato de estarmos em mais de uma fosse suficiente para intimidar os usuais gracejos do camarada taxista. Felizmente, deu tudo certo: chegamos em casa.

Ganhamos as ruas. Entramos de forma massiva no mercado de trabalho e, vez ou outra, até ocupamos altos cargos em grandes empresas. Se vendemos nosso corpo, é porque assim “escolhemos”. Escolhemos ser mães e escolhemos também um bom partido. Enfim, temos uma presidenta. E o trinco continua ali, tranquilo, imperceptivelmente infalível.

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comentários
  1. Tica Moreno disse:

    sintonia mana!

  2. su disse:

    massa… martelando na cabeça!

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