“Being real and being free”

Publicado: abril 10, 2012 em riot grrrl
Tags:, ,

Nunca pensei que conheceria alguém de Olympia. Nunca pensei que conversaria sobre o riot grrrl com alguém do Rock Camp for Girls de Olympia. Nunca pensei que sentaria no chão e arrastaria meu inglês com pessoas tão fodas de uma das bandas mais legais da atualidade.

Eu resolvi prestar atenção no RVIVR quando a Adriessa me falou que uma das minas da banda era feminista. Até aí, OK, era só uma banda legal de hardcore que eu ia ter a oportunidade de ver ao vivo. E na última quinta-feira, véspera de feriado de Páscoa, fomos à terceira edição do evento Liga Juvenil Anti-Sexo com a humilde missão de entrevistá-los e de curtir o show.

Os dois caras da banda, Matt (vocal/guitarra) e Kevin (batera) conversavam no corredor, enquanto as minas, Erica (vocal/guitarra) e Alana (baixo) circulavam pelo evento e acompanhavam o debate que estava acontecendo. Então puxamos assunto com eles e de repente estávamos ali, tod@s nós, sentad@s na calçada trocando sotaques sobre o movimento riot grrrl, sobre a cena punk e sobre os próximos minutos e sobre os próximos anos de nossas vidas.

Separadas por duas gerações, Erica e Rebeca trocavam impressões, ali no chão. “Nunca nos disseram que a gente podia fazer”, confidenciou Erica. “Estão sempre nos dizendo que a gente pode fazer… Deve ser por isso que as garotas da minha idade também não fazem”, refletiu Rebeca, com a sensação incômoda do “já está tudo pronto” de nossos tempos pós-moderninhos – feminismo hoje pra que mesmo? As duas pensavam alto, com a intimidade de quem se conhecia há longos cinco minutos -sintonia instantânea.

#ERICASUALYNDA

Uma banda pode ser legal de várias formas. E uma delas, sem dúvida, é fazendo valer cada minuto do show, cada centavo investido em cds, camisetas e ingressos, é respeitando os humores de seu público e sendo absolutamente cordial com ele. Mas o RVIVR está há alguns enormes passos além disso. Fazer questão de decorar o nome de cada uma de nós, de (literalmente) vestir nossas camisetas, de falar com a gente e, principalmente, de nos ouvir de forma sinceramente interessada, sempre com o incansável sorriso no rosto e a frase “I´m só glad you´re here”, pra mim, imediatamente alçou a Erica e o restante do RVIVR ao posto de uma das bandas em atividade mais legais do mundo. Elas/es podiam só ter tocado, e o show teria sido, de qualquer forma, incrível. Mas quando você sente cada acorde pulsar junto com o coração de cada um dos membros da banda, e sente que cada honesta gota de suor derramada é de verdade, você entende que estar no palco é apenas uma extensão da vida fora dele.

Estávamos totalmente curiosas pra saber como está a cena em Olympia duas décadas depois que o riot grrrl lançou ao mundo as bandas que mudariam as vidas de cada uma de nós. E nos deu uma ponta de esperança enorme saber da boca deles que há tantas meninas quanto caras tocando, que é natural ir a um show e ver várias delas tocando, sem que esteja escrito no cartaz “banda de meninas”. Foi incrivelmente reconfortante saber que há tantas meninas quanto caras nos shows. Nós que aqui ficamos emocionadas quando há pelo menos uma mina tocando em uma banda dentro de um festival, e quando não as vemos apenas a segurar os casacos dos meninos que estão no mosh durante os shows. Nós que colocamos nossa energia na organização de festivais e eventos que tentam, de alguma forma, acelerar esse tal processo de luta pela igualdade que não vem de bandeja – sabemos.

E Erica nos perguntou “vocês acham que se eu chamar as meninas pras frente elas vão? Não vão se machucar?”. O receio era grande, sobretudo pelo que já haviam ouvido falar da Verdurada, onde seria seu próximo show em São Paulo. E nós então assumimos o compromisso maluco de garantirmos a segurança delas, enquanto secretamente esperávamos conseguir garantir a integridade física de nós mesmas.

Ao soar o primeiro acorde de seu primeiro show no Brasil, Erica postou-se ao microfone “Me-ninas para frrren-te”. E a cena se repetiu no show em Blumenau, durante o final de semana. E se repetiu novamente, no show da Verdurada. Estávamos pautando feminismo na turnê do RVIVR no Brasil. Estávamos construindo nosso próprio “espaço seguro” ali, no meio da arena do hardcore selvagem straight edge vegan. E levamos nossa tarefa realmente a sério. Levantamos o cartaz “Meninas para frente”, pra incentivar mais garotas a ocuparem o espaço. E a reação dos caras à “perda” foi, a princípio, tão natural quanto previsível: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço.

Eu entendo toda a resistência da sociedade ao feminismo a partir dessa metáfora que se desenhou no show. Pra que mais garotas ocupem seu lugar na cena, alguns caras vão ter que ceder de vez em quando. E não se trata de guerra dos sexos ou qualquer outro conceito errado de feminismo “radical”. Não precisa ser essa guerra o tempo todo. A questão é que não havia garotas à frente do palco, tampouco nas outras bandas que tocaram no evento, então a “briga” é pela igualdade que não temos. E, enquanto não tivermos, vamos continuar a levantar cartazes.

E de repente temos uma banda que fala sobre tudo isso ali, entre uma música e outra, e que pede, insistentemente, apenas pra que tod@s se respeitem e se divirtam no show, enquanto o que tod@s nós estamos desejando ali, secretamente, é podermos nos respeitar e nos divertir no show.

Obrigada. 🙂

[ps1: Quarta-feira tem mais RVIVR em São Paulo, na Livraria da Esquina!]
[ps2: Em breve, vamos compartilhar no Youtube a entrevista que fizemos com eles/as! ;]

Anúncios
comentários
  1. raphael disse:

    otimo texto Bruna! não conversei com o pessoal da banda, mas é exatamente a impressão que eu tenho delxs.

    e ver as meninas gritando perto do microfone em Blumenau foi muito bacana. gostei dessa maneira que você escreveu como para as mulheres terem mais espaço os caras vão ter que ceder. acho que muitas vezes nao percebemos isso, de que por mais bem intencionada que seja, uma postura “suba no palco comigo” não resolve tanto quanto “desço do palco pra você subir”.

    e tomara que o reviver volte pra ca mais vezes =)

  2. raphael disse:

    otimo texto Bruna! nao conversei pessoalmente com o pessoal da banda, mas é exatamente a impressao que eu tenho delxs.

    gostei da maneira que voce escreveu como alguns vao ter que ceder para que outrxs ocupem espaco. acho que as vezes nao percebemos que uma postura “suba no palco comigo”, por mais bem intencionada que seja, nao é tao boa quanto “eu desço do palco pra voce subir”. =)

    e tomara que o reviver volte pra ca logo!

  3. André disse:

    Pow desde que conheci a banda em 2014 não paro mais de ouvir, e a minha banda preferida, pena eles não terem vindo aqui no Espirito Santo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s