Com quantas obcecadas se faz uma revolução?

Publicado: abril 17, 2012 em feminismo, marcha mundial das mulheres, política, riot grrrl
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Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo/SP (2011). Foto: Elaine Campos.

 Pode começar com uma mensagem no gtalk, um comentário no Facebook ou um tuíte – pra quem trabalha no computador ou passa horas nele por conta de estudo/hobbie. Pode começar depois de uma fala machista de um policial, no meio de uma palestra em uma faculdade de Direito – como no caso da Marcha das Vadias (Slutwalk), que só foi ganhar a internet depois. As nossas ideias criativas de como mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo/mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres não escolhem ocasião, surgem como contra-ofensiva (alternativa) à ofensiva sexista cotidiana.

Então, de repente, você encontra parceiras pra fazer as mais variadas coisas, de panfletagens e ações diretas nas ruas a tuitaços e blogagens coletivas. Parceiras que compartilham das mesmas visões de mundo, ainda que com uma ou outra divergência saudável, e, principalmente, que compartilham das mesmas motivações pra querer tornar a vida mais justa e solidária entre mulheres e homens. E daí que basta pensar alto pra que essas pessoas se somem a você, com o mesmo gás pra fazer acontecer #tudoaomesmotempoagora: o feminismo é urgente e não pode esperar.

Pra mim, o que eu entendo por feminismo só tem sentido se for coletivo. Não vale falar que tudo “depende da mulher querer”, citando o exemplo daquela Fulana que passou por mil dificuldades e hoje tem uma carreira bem sucedida, é chefe de alguma coisa, cuida da casa sozinha (isso é vantagem onde, Braseel?) e blábláblá. Também não vale dizer que vamos romper com o machismo com atitudes individuais porque, olha, o patriarcado é beeeem organizado. E a única forma de romper com ele, pra mim, é a gente se organizando também.

A nossa luta é diária, porque o machismo não escolhe dia nem lugar e – vejam só – acontece nas melhores e nas piores famílias. Pra mim, vem daí a importância de formar uma rede feminista: é conseguir pensar em conjunto sobre nossa experiência vivida e tirar alguma lição dela – seja refletindo, seja estudando, … É conseguir responder rapidamente à ofensiva conservadora, que é cotidiana, incansável – seja fazendo músicas, seja construindo um repertório de respostas pra “cantadas” machistas.

Entretanto… não é apenas se organizando que a solução vai surgir, mágica e romanticamente. Estar numa banda, num coletivo, num movimento social ou num grupo qualquer, implica certo grau de dedicação e de paixão (por que não?). E a lição número um que a gente aprende militando de forma coletiva é que algumas pessoas vão fazer mais, outras menos, tudo depende do grau de envolvimento (de obsessão, diriam algumas) com o processo. Jogar muita energia em prol de alguma coisa e ver que outras pessoas não estão se empenhando tanto, ou que simplesmente sumiram no meio do caminho, faz parte. Aprender a lidar com isso também.

Existe estudo, trabalho, família, cobranças da sociedade – afinal, não é contra isso que a gente tá lutando? Estranho seria se viesse tudo de bandeja… Algumas pessoas são obcecadas pela musica, outras por natação, outras por crianças, outras até mesmo pelo trabalho. Seria tudo mais fácil de fossemos todas igualmente obcecadas pelo feminismo. Assim… como se fosse nosso ar…

Mas militar de forma coletiva é também compreender e respeitar o tempo/inspiração de cada uma. Eu já participei da organização de debates em que foram três pessoas, e de um festival em que foram centenas delas. Rever formatos, temáticas, abordagens e, principalmente, democratizar radicalmente o processo de construção e de participação em cada um deles talvez seja o primeiro passo pra fazer as coisas darem certo.

Entre uma das milhares de coisas legais que a Tica já me disse e que eu guardo pra vida, está a ocasião em que ela de fato entendeu o que significa fazer parte de um movimento social como a Marcha Mundial das Mulheres. Ela estava em uma reunião com outros grupos feministas e as pessoas começaram a se apresentar com seus nomes e sobrenomes, seguidos de mini-currículos do tipo: “Eu sou Fulana, fui diretora de X, coordenei Y, fui presidenta de Z”. E então chegou a vez dela, e o que ela achou relevante dizer ali foi: “Oi, eu sou a Tica, militante da Marcha Mundial das Mulheres”. Pra mim, isso é muito simbólico, e diz respeito à tal da horizontalidade.

O “kill your idols” não quer dizer pra você assumir o lugar delas/es em seguida, tampouco é questão de simplesmente “fazer melhor”… Porque quando você acende um holofote na cara de uma, as outras automaticamente ficaram na penumbra. Talvez seja momento de pensar: afinal, pra que(m) isso tá sendo feito? Pra mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo (e mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres) ou pra iluminar só a sua própria vida? O lance é que não precisamos de novas lideranças, talvez nem mesmo precisemos delas. Prefiro achar que só precisamos de mais obcecadas…

Leia também:

Feminismo 2.0 contra o machismo neandertal

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comentários
  1. Helena Krausz disse:

    bruna. lindo o que disse.
    é isso.

  2. Duda Carvalho disse:

    Em algum momento do Emancipar fest, chateada, falei pra Rebeca “Cadê as minas do coletivo?” e ela respondeu apontando para as pessoas ao redor, “O Coletivo sou eu, você, essa que está sentada ali, ela, aquela outra”, foi o que aprendi naquele momento… eu realmente queria que todas as outras que eu cobrava na hora estivessem lá, participando, aprendendo umas com as outras, mas ignorei o fato de que a “liçao número um” que você cita no texto é aplicável a todas, inclusive pra mim. E outra, eu realmente, estou cansada de “top feministas”.

    • chloenovaes disse:

      Bruna, vc falou tudo com esse post, estou mais do que farta de ouvir subtitulos depois de nomes próprios. Eu mesma cometi isso quando estava me apresentando no começo do debate no Emancipar Fest quando falei “Meu nome é Chloe Novaes, do extindo GrrrlVirus Brasil”. Eu, que sempre fui contra “titulos de posse” dentro do feminismo e as meninas que tentavam criar seu “próprio mainstream feministas com seus seguidores”, estava lá falando da mesma forma. Me dei conta que as vezes nem percebemos e estamos cometendo mais uma vez o erro que apontamos, mas estava aí seu post para me abrir os olhos! E concordo demais com a o que a Duda falou: “estou realmente cansada de top feministas”, pq no fim, elas não servem para quase nada além de ter uma atitude cada vez mais elitista e causar danos a união feminista.

  3. Bah disse:

    O feminismo não é uma graduação carregada de títulos e ocupações verticais “status quo”, é uma luta diária, um estilo de vida, uma lente. Não é bandeira pra ser hasteada apenas, mas pra ser defendida, afinal a luta ainda não terminou.

    Só coloco minha posição de não dicotomizar o individual do coletivo, ambos são necessários, seja numa conversa pessoal, seja numa manifestação. Toda forma de luta é válida, lógico que com união fica mais gostoso.

    Bom texto.

  4. Mariana Mendes disse:

    Meus respeitos aos mestres que austeramente elucidam com bravura e confiança, o conhecimento entre as pessoas. sem este viveríamos na escuridão de nossas ignorâncias, no entanto, isso não quer dizer que títulos levam ao conhecimento e/ou sobretudo… à mudança social. ATITUDE, SIMPLICIDADE E COLETIVIDADE fazem grande diferença no final.

  5. Toda vez que eu ouço, ou digo, a palavra obeceda, eu lembro da Tatau.

    É verdade que a gente não precisa de lideranças, se a gente se propõem o protagonismo, mas uma coisa que é muito loca, é que a gente acaba tendo figuras na nossa vida que nos inspiram a iniciar esse caminho de luta. A tatau foi a minha, e vejo que vc tem sido a de muitas outras.

    Bacana partilhar desses momento de comunhão, pq não?, com vcs!

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