[Texto publicado originalmente no site Blogueiras Feministas, em 26/06/2012]

Em 2011, com data marcada no Facebook para acontecer, a questão era ir ou não à Marcha das Vadias de São Paulo, manifestação sobre a qual as poucas informações que tínhamos vinham da mídia gringa ou das redes sociais.

Concentração para Marcha das Vadias em São Paulo/SP 2012. Foto de Cecília Santos.

A gente, da Fuzarca Feminista, núcleo jovem da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo, achou que tinha que ir. Outras pessoas também acharam. Conversamos alguns minutos sobre nossa participação como coletivo. Afinal, atuar de forma coletiva implica em refletir sobre as posições que tomamos em conjunto e conseguir minimamente defendê-las de dentro (de um movimento que é amplo em toda a sua diversidade de classe, raça/cor, idade, orientação sexual…) pra fora.

Fizemos uma oficina de cartazes, levamos nossos batuques, pensamos em um provável trajeto — que ia depender da vontade das outras pessoas envolvidas —, divulgamos na internet e fomos lá nos somar. A primeira Marcha das Vadias realizada no Brasil foi feita assim, com a cara de quem apareceu na Avenida Paulista no dia 3 de junho de 2011, (ul)trajada com seus cartazes, ideias e gritos feministas.

De um ano para cá, as Marchas das Vadias tomaram o país. Em alguns lugares, tais como Brasília e Campinas, geraram coletivos. Em todos, plantaram sementinhas de igualdade. Ajudaram a tirar a violência sexista e os padrões de gênero do armário, e ajudaram a tirar um bando de gente que estava quietinha de dentro de casa. Ainda que a cobertura da mídia sempre prefira dar mais voz a nossos seios do que a nossas palavras (de ordem, ainda que sem uma ordem pré-estabelecida), compartilhamos fotos, posts e vídeos que ajudaram a ligar os pontinhos do que entendemos hoje por Marchas das Vadias no Brasil.

Em maio 2012, já estava montado o calendário das Marchas que ocorreriam em todas as regiões do país, quase todas agendadas para o dia 26 de maio. Em São Paulo, a polêmica inicial envolvendo a primeira data marcada no Facebook logo revelou os contornos de uma divergência um pouco mais ampla em torno dos objetivos da manifestação — compreendida, por umas, como um simples happening, e pela maioria como uma ação política. Se podemos dizer que essa polêmica serviu para alguma coisa, acredito que tenha sido para mobilizar ainda mais pessoas em torno de sua preparação.

Ao contrário do ano passado, a organização da Marcha das Vadias 2012 em São Paulo foi, de fato, coletiva. Usamos a internet para divulgar reuniões presenciais abertas a quem quisesse contribuir, tendo participado no ano passado ou não. E a maioria das pessoas que contribuiu para que a Marcha acontecesse — trocando experiências de vida, discutindo o trajeto, pensando nas intervenções pelo caminho, acionando jornalistas amig@s para garantir uma cobertura “menos mercantilizada” conforme fosse possível, divulgando incansavelmente em suas redes sociais, vendendo cerveja na universidade para garantir que houvesse tintas e cartazes tantos quantas pessoas a fim de pintá-los durante a concentração e colando lambe-lambes até as 4 horas da manhã na noite anterior —, essas pessoas jamais tinham participado de quaisquer manifestações antes.

O conflito gerado no início da Marcha das Vadias 2012 em São Paulo e a onda das marchas como um todo serviram, sobretudo, para escancarar o que muitas de nós já tinham percebido tempos atrás: que existe uma grande demanda por parte das mulheres pelo feminismo. Existe muita coisa mal resolvida nas relações entre mulheres e homens, e uma necessidade evidente de botar tudo isso para fora de alguma forma.

E a forma encontrada para isso, nos dias atuais, tem a cara e o formato dos novos movimentos em rede. Sem bandeiras de partidos e discursos pré-elaborados por especialistas, a Marcha das Vadias agrega gente que está ouvindo falar do tal do feminismo pela primeira vez assim, na prática, de uma forma bonita, sincera e sem os fantasmas que a grande mídia e a Igreja colocaram em cima do movimento por tanto tempo. A Marcha das Vadias agrega outro tanto de gente cansada do feminismo acadêmico, chato, das especialistas que, de tão obcecadas pelo assunto, nem mesmo percebem os contornos da segura bolha lilás construída a seu redor. No guarda-chuva colorido do feminismo descolado, LBGTT´s saíram às ruas, de mãos dadas com a igualdade com que também sonham, e homens héteros saíram às ruas, carregando no colo @s filh@s de seu apoio a essa causa protagonizada pelas mulheres.

Marcha das Mulheres na Cúpula dos Povos 2012. Foto de Cintia Barenho.

Ocupar o espaço público, ultrapassando as esquinas do Facebook e as páginas de Simone de Beauvoir, é o que nos dá voz e que nos fortalece de fato, enquanto mulheres, enquanto coletivo e enquanto grupo político. E é exatamente por isso que eu acho que a gente pode e precisa dar uns passinhos além da praça da República, que é onde a Marcha terminou por aqui. Não dá para voltar para casa e continuar gastando 10 horas a mais que nossos parceiros com trabalho doméstico. Não dá para continuar ganhando menos pelo mesmo tipo de trabalho. Não dá para continuar deixando que 5 mulheres sejam espancadas a cada 2 minutos. Não dá para o machismo continuar matando. E senta que a lista de “não dá´s” é enorme.

A Marcha das Vadias, enquanto manifestação política e movimento em rede, cumpriu seu papel: mobilizou uma galera pro tema do feminismo, botou duas mil pessoas nas ruas da capital paulista, ensinou para muita gente o 2 + 2 = 4 da igualdade e deixou a todas nós com um sorriso no rosto, ao final do dia. Mas, cá entre nós: o buraco é BEM mais embaixo. Falar de feminismo sem questionar o sistema econômico é tipo comer pelas beiradas. A gente não vai ser livre de verdade enquanto tiver um modelo de produção/consumo baseado no lucro em cima da exploração de nossos corpos, tratados como mercadoria e, em cima do trabalho doméstico e de cuidado que as mulheres fazem, de graça, todos os dias, “por amor”.

E aí, quando a gente sai da Cúpula dos Povos, que é tipo a versão “mundo real” da Rio+20, a gente entende melhor que vai ter que ser tudo junto… Que não adianta, por exemplo, falar de “capitalismo verde” dialogando só com as corporações, sem discutir o modelo de produção/consumo que vende a natureza tanto quanto os corpos das mulheres. Nesses espaços amplos e mistos, onde a sombra da opressão costuma ser reproduzida em mesas de debate quase sempre monopolizadas por homens, onde nossas vozes, já “naturalmente” mais baixas, são abafadas por pautas gerais e “maiores”, onde a organização das mulheres ainda é vista meio de lado por certos setores políticos, “porque divide a luta” (século XX bombando!), a questão das mulheres nunca foi tão transversal.

Marcha Mundial das Mulheres e indígenas ocupam BNDES durante a Cúpula dos Povos 2012. Foto de Jéssika Martins.

 

Cê viu, cara? Tava tudo parado no centro! Um monte de gente na rua: mulher, sem-terra, LGBT, …! Tinha uma mulher no carro de som e toda hora ela falava “não-sei-o-que das mulheres …”, “as mulheres…”.
[metrô lotado a caminho da Pavuna, na região Norte do Rio].

Arrisco dizer que nunca estivemos tão presentes em todos os momentos, de construção e realização, da Cúpula dos Povos. E não a toa. É através da nossa auto-organização em coletivos e movimentos sociais que a gente consegue romper o silêncio, ainda que seja dificílimo para algumas romper a divisão sexual do trabalho para poder participar de uma reunião.

São nesses espaços autogestionados por mulheres que conseguimos exteriorizar a opressão que vivemos no nosso cotidiano, refletir sobre ela e formular nossas próprias saídas. E é através de nossa participação nos espaços mistos, dialogando e nos articulando com outros movimentos sociais, que conseguimos inserir nossas pautas, de iguais para iguais durante um segundo.

Manifestação das mulheres na Cúpula dos Povos 2012. Foto de Bruna Provazi.

E de repente – tá, não tão de repente assim… – a gente tá lá no Rio de Janeiro, sendo voz ativa em todas as plenárias, assembleias e manifestações, na tentativa de garantir que nada seja deixado “para depois da revolução”. E de repente alguns cumpañeros começam a defender nossas pautas também… E a ideia de que tem que ser tudo junto vai se espalhando… Por que tá tudo ligado… e qualquer manifestação que não discuta de forma profunda e inclusiva com tod@s, e não apenas com seu grupos de amig@s do Facebook ou seu círculo de amizade classe-média-Augusta, vai ficar sempre no meio do caminho, com a sensação da revolução pela metade… É por isso que precisamos estar unidas e organizadas, porque a luta não acontece uma vez por ano, tampouco se encerra na praça… E eu me recuso a chamar de “pós-feminista” um mundo onde ainda exista patriarcado…

Talvez seja puro delírio de noites mal-dormidas achar que as coisas podem ser diferentes algum dia… Talvez seja culpa da Cúpula dos Povos, que deixa a gente sentindo que, se tem tanta gente massa sonhando junto, vai ver que o tal do outro mundo é possível mesmo…

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