On the Road – na fronteira entre a transgressão e o patriarcado

Publicado: julho 26, 2012 em outras
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A empolgação de meus amigos com a obra-prima de Jack Kerouac sempre foi diretamente proporcional à minha preguiça para com ele. Certa vez, há alguns anos, lá pelas tantas em uma mesa de bar, um deles chegou a propor que pulássemos dentro de um vagão de trem que cortava nossa cidade, rumo ao desconhecido. A aventura seria toda registrada em sua mini-dv recém-comprada, e daria origem a um curta-metragem meio “beat nik pós-moderno mineiro”. Respondi com mais um gole de cerveja à proposta inusitada, enquanto imaginava o quão fácil seria descobrirmos o destino daquele vagão, e o quão difícil seria explicar para meus pais que iria me ausentar por alguns dias(?) pra dar um rolê num trem sabe-se lá pra onde com uns amigos que nunca lhes apresentara. É claro que a viagem jamais aconteceu.

Foi somente há alguns meses, obviamente incentivada pelas notícias sobre sua adaptação para o cinema e sobre a atuação definitiva de Kristen Stewart que resolvi, finalmente, dar uma chance a Jack: comprei, em uma banca de jornal, “a bíblia da geração beat”, agora vendida em sintomáticas edições populares de bolso. E qual não foi minha surpresa (#not) ao me deparar com as figuras masculinas e femininas apresentadas por nosso anfitrião Jack.

Se, com algum grau de miopia, as sutilezas da relação estranha de Dean com suas futuras ex-esposas Camille e Marylou passam despercebidas no texto corrido de Kerouac, a discrepância estampada na película logo nos salta aos olhos. A cena mais forte talvez seja quando Dean deixa a esposa em casa, com o bebê chorando, para curtir a night com Sal. No livro, passagem semelhante ocorre quando Dean, cansado de sua rotina de marido/pai, inventa uma desculpa para desvencilhar-se de Camille e da filha e rodar meio país em busca de novas estripulias com Sal. Dean então parte para sua jornada rumo novamente à “vida de solteiro”, acompanhado, é claro, de Marylou (ex-esposa e então amante) e de Ed Dunkel, companheiro que, inspirado pelo “ídolo” Moriarty, casa-se com Galatea por dinheiro e abandona-a no meio da viagem, retornando somente tempos depois, após súplicas da esposa.

´Agora tá tudo legal´, disse Dean acordando de repente e saltando da cama; ´o que devemos fazer é comer, já. Marylou, vai lá dar uma geral na cozinha e vê o que tem´.

´E saca só aquela ali!´, gritava Dean, apontando para outra mulher. ´Oh, eu amo, amo, amo as mulheres! Acho que elas são maravilhosas! Adoro mulheres!´. Cuspia pela janela, gemia, agarrava a própria cabeça.

Se a atuação dúbia de Kristen Stewart deixa dúvidas quanto ao grau de autonomia (e desejo) de Marylou na trama, a clássica passagem em que Dean pede ao amigo Sal para que transe com ela na sua frente não deixa dúvidas no livro:

Dean contou a ela o que havíamos decidido. Ela disse que estava satisfeita.

– ´Vai firme, cara, você prometeu´, disse Dean.

– ´Porra, e a Marylou?´, disse eu. ´E você, Marylou, o que é que você acha?´

– ´Vai em frente´, disse ela.

Dean Moriarty é aquele cara simpático e fanfarrão que conhecemos. Aquele que mostraria a foto da filha na carteira pra puxar papo com a mina na balada – se as máquinas fotográficas fossem mais acessíveis àquela época. O bom discípulo Sal Paradise (a.k.a. Jack Kerouac) não fica pra trás.

O que tenho eu? Tenho 35 anos. Uma ex-mulher que me odeia e que gostaria de me ver na cadeia. Uma filha que nunca vejo. Minha própria mãe, após todos esses anos de labuta e lágrimas, ainda rala o rabo numa fábrica de sapatos. E eu não tenho um só centavo, nem para uma puta que preste. (carta de Kerouac enviada ao amigo John Clellon Holmes, em fins de 1956, poucas semanas antes de On the Road ser, enfim, aceito para publicação.)

Se você já clicou neste humilde blog alguma vez em sua existência, deve imaginar aonde vou chegar. Se você chegou  neste texto e não frequenta este blog empoeirado, provavelmente você acha “a obra-prima de Kerouac” foda. Eu também acho. É foda. É inspiradora. Mas não deixa de ser um livro escrito “por e para homens”. On the Road influenciou a literatura, o jornalismo e os jovens de várias épocas – sim, todo mundo já sabe disso. O ponto é que, assim como a literatura e o jornalismo convencionais – os quais Jack tanto rejeitava -, On the Road também reproduz, nas relações entre homens e mulheres, todo o tradicionalismo do qual buscava fugir.

Kerouac talvez jamais tivesse (a vontade de ter) pensado nisso – assim como muitos de nossos amigos talvez nunca tenham parado pra pensar nessas coisas senão por meio de alguma amiga feminista mala. Seria aliás, profundamente revolucionário, se as mulheres e os homens de seu círculo “libertário” tivessem extrapolado de fato os limites da sociedade patriarcal dos anos de 1950. Fico pensando se uma das razões pr´“As aventuras de Jack e seus amigos pelos Estados Unidos” continuarem a inspirar tantos jovens pelo mundo inteiro, ainda hoje, não está exatamente no fato de que os valores de nossa sociedade não tenham mudado tanto assim desde então. Obviamente, houve transformações definitivas nesse meio tempo, muitas delas a partir da própria segunda onda do feminismo, que Sal Paradise não chegou a conhecer. Mais de meio século depois, aproveito então da relativa liberdade da qual disponho, em 2012 do século XXI, e do sopro fresco de liberdade que Walter Salles nos joga em nossos olhos e mentes, pra deixar aqui esta pretensiosa ideia de que, se é pra ser libertári@s mesmo, a gente podia ir bem além…

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comentários
  1. Ciro disse:

    muito legal o texto, bruna. também sempre tem aquele papo que jack kerouac “virou um conservador” quando ficou velho. acho que na verdade ele não virou nada e continuou sendo o que sempre era. on the road é inovador por ter sido pioneiro neste estilo de pegar uma mochila, sair por aí e escrever sobre isso. inspirou muita gente a fazer o mesmo – e até melhor que on the road. mas sempre achei estranho os valores pregados por kerouac e seu grupo considerado tão “libertário”. as ideias novas estão lá, mas misturadas com as velhas.

  2. Daia disse:

    Ótimo texto Bruna !
    Sabe.. ganhei o “On the road” do meu namorado esse ano, e eu tinha escutado falar muito bem do livro, comecei a ler imediatamente, mas conforme as páginas iam se passando, a carência de uma personagem mulher em que eu pudesse meio que me identificar e alguns comportamentos dos personagens principais começaram a me enojar um pouco. Levei em consideração a época em que foi escrito.. mas mesmo assim, como vc falou, se a intenção era ser super libertário, Kerouac deixou a desejar muito nesse sentido.

    (mesmo assim vale a pena ler o livro) 😀

    beijoos!

  3. Esse texto está me fazendo repensar alguns conceitos que eu tinha sobre o livro…obrigada, rs

  4. francisco disse:

    On the road é um livro muito massa, diferente de outros como Tristessa e Geração Beat – este que é um texto de teatro e tem um trecho que a mina está cozinhando pros caras e começa uma batucada com panelas, que vai ganhando ritmo até perder a graça (ou entrar pro universo do instituto de ciências humanas). Acho que On the road tem coisa para ser encarado sob diversos aspectos “libertários”, mesmo quando “reproduz, nas relações entre homens e mulheres, todo o tradicionalismo do qual buscava fugir.” Acho que a primeira sensação ou concepção libertária pra muita gente que leu o livro na mesma época que eu, foi viajar pra qualquer lugar sem ter que dar satisfação em casa – libertação da mamãe e do papai é importante quando vc decide ser um pouquinho mais vida loka, maluco ou revolucionário. Ainda não vi o filme, mas acho muito foda um brasileiro dirigir um filme baseado nessa história.

  5. Thandara disse:

    É por essas e outras que eu amo a Bruna Provazi ♥

    Para todos os amantes de Kerouac que já vieram me falar sobre esse livro e sobre esse autor, uma contextualização: “Barry Miles [principal biógrafo de Jack Kerouac] confessa que se surpreendeu com o que descobriu sobre seu biografado. Ao longo dos anos, Kerouac criticou o movimento hippie, apoiou a Guerra do Vietnã e só votou em candidatos republicanos” (http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/46575), além de algumas referências ao discurso antissemita de Kerouac (http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/07/01/internas_viver,382381/biografia-de-jack-kerouac-recem-lancada-no-brasil-desfaz-a-imagem-cool-do-escritor.shtml).

    Discurso libertário feito por apoiador da guerra, antissemita e republicano, NÃO PASSARÁ!

  6. Fernanda disse:

    Olá Bruna. Assim como você, eu reparo muito nesse tipo de falha. Nomes influentes como Kerouac, Bukowski e Nietzsche objetificaram as mulheres e apresentam senso crítico restringido por aproveitarem do Patriarcado quando a intensão de suas escritas era debochar de tradicionalismos. É compreensível quando analisamos o contexto de época em que viveram, porém foram, de fato, limitados.

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