Sobre Gabrielas e Ronaldos

Publicado: agosto 6, 2012 em marcha mundial das mulheres, mercantilização, política

Sexta-feira passada, tivemos o prazer de conversar com Wilhelmina Trout, militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) da África do Sul, último país sediar a Copa do Mundo e primeiro país da África a receber um evento desse porte. A conversa, que deveria ser sobre prostituição durante a Copa, acabou extrapolando os limites da atividade – limites esses que, a bem da verdade, precisam ser ultrapassados por qualquer debate que se proponha a ser sério sobre a prostituição atualmente…

Wilhelmina começou falando do contexto da África do Sul, país que, até 1994(!), simplesmente não podia participar da Copa do Mundo devido ao aparthaid. Em 2008, havia portanto uma grande expectativa em todo o continente africano. De um lado, havia uma grande vontade de provar ao mundo que a África era capaz, sim, de realizar um evento de tal porte. Por outro lado, as promessas da Fifa de investimentos (trabalho, riqueza e infra-estrutura) que viriam junto com o mega-evento faziam brilhar os olhos de qualquer (sul-)africano. A realidade, entretanto, mostrou-se um tanto quanto diferente…

Os investimentos não ocorreram nas áreas pobres do país, o que só contribuiu para aprofundar a desigualdade social. Ao contrário, a população das áreas pobres foi varrida “em férias” para outras cidades, na tentativa de maquiar e esconder a pobreza em torno dos locais pelos quais a Copa iria passar. O comércio informal foi proibido. Às mulheres, foi prometido que poderiam vender seus produtos, o que não aconteceu. A África do Sul perdeu até a demanda de produzir localmente as camisas oficiais da Copa, as quais foram importadas made in China. No pós-Copa, os grandes estádios construídos transformaram-se em verdadeiros elefantes-brancos. Estima-se que a Copa tenha levado 400 mil visitantes para o país, gerando para a Fifa um lucro de 40 bilhões da moeda local (que equivale a cerca de 1/3 do euro).

A Copa do Mundo, assim como os mega-eventos da ONU, representam um regime de exceção em que, durante aquele determinado período, seu país passa a ser governado pelas leis da Fifa. Durante a Copa, por exemplo, fica proibida a aglomeração de mais de vinte pessoais perto dos locais dos jogos e atividades. No Brasil, isso significa que estarão restritas manifestações, pelo menos nas 31 cidades que irão receber delegações.

Foi nesse contexto que o partido de Nelson Mandela(!) tentou-se legalizar a prostituição, apenas durante o período da Copa do Mundo, com apoio do movimento de mulheres mais representativo do país, a Liga de Mulheres da A.M.C. Ou seja, durante o período em que o país recebe um fluxo de turi$mo organizado – proveniente, principalmente, da Europa -, hospedado em grandes hotéis, muitos dos quais ligados à rede de prostituição internacional, durante este período em que o país abre suas portas para turi$tas ricos (porque a verdade é que nem mesmo os sul-africanos têm dinheiro para pagar pelos ingressos dos jogos), e para jogadores de futebol do mundo inteiro, neste período, coincidentemente, aparece toda uma vontade política de se legalizar a “profissão”, apenas durante a Copa, apenas durante o período em que a grande máfia internacional (branca e masculina) chamada Fifa dita as regras no país.

MMM no Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo/SP (2011). Foto: Elaine Campos.

Durante todo o período de realização da Copa do Mundo, o futebol feminino não foi incentivado na África do Sul. A lei da prostituição não foi aprovada, mas foi silenciosamente aplicada.

Um passinho à esquerda, por favor

É estranho e bizarro que setores mais “progressistas” da sociedade defendam umas leis desse tipo. Aqui no Brasil, temos visto recentemente os holofotes do assunto voltados para o projeto do deputado Jean Wyllys, do PSOL. Com forte apelo midiático, o projeto intitulado “Lei Gabriela” é, entretanto, bem menos floreado do que na ficcção. O projeto de lei não se propõe a trazer benefícios trabalhistas para as profissionais do sexo. Por trás do discurso de liberdade e autonomia para as mulheres, Wyllys propõe nada menos que até 50% de lucro para o cafetão (cafetina) sobre o trabalho da prostituta. O que significa que, se a mulher recebe 100 reais pelo “trabalho”, o cafetão (cafetina) pode ficar com até 50 reais. Se ele ficar com 51, aí sim, Jean Wyllys considera exploração.

O nosso orgulho enquanto Marcha Mundial das Mulheres é ir à raiz do problema.

(Wilhelmina Trout)

E é nesses momentos em que nós da Marcha Mundial das Mulheres temos a nítida dimensão do quão radical o nosso movimento se propõe a ser. Porque lutar contra a hegemonia significa querer, radicalmente, nada menos que a liberdade de todas as mulheres. Significa entender que, por trás da prostituição, existe a violência, a máfia, o tráfico e a exploração das mulheres, existe a divisão entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”, “lugar de homem” e “lugar de mulher”, que nos reserva o posto de prostitutas ou gandulas, enquanto oferece aos meninos o sonho de serem Ronaldos – que podem pagar pela prostituição ou, até mesmo, assassinar “prostitutas” como Elisa Samúdio impunemente. Qualquer tentativa de lei mais ou menos solidária dessas vai ficar sempre nos 50% da liberdade que sonhamos para todas nós.

Ao final, Wilhelmina nos confidenciou em voz alta que – sobretudo depois que marchamos em mais de duas mil mulheres (rurais, urbanas, indígenas, novas e velhas), dez quilômetros por dia, durante dez dias, entre Campinas e São Paulo, totalmente auto-organizadas, em março de 2010 – a expectativa de toda a Marcha Mundial das Mulheres, internacionalmente, é que as brasileiras façam nada menos que dar muito trabalho pra esses caras na Copa do Mundo. E o pior (ou o melhor) de quando alguém tem uma ideia assim, é que a gente sempre topa.

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comentários
  1. Não nos furtaremos de fazer um debate sério sobre o tema da prostituição, não podemor falar de prostituição e esconder o fato de que a prostituiçao expressa opressão e poder.

  2. A Marcha Mundial das Mulheres não vai dar sossego aos homens de Neandertal na Copa,aguardem.Uma mídia cada dia mais machista e violenta contra a mulher . Ontem mesmo a Jornalista (Mulher) publica um artigo na Revista Galileu com o seguinte t
    iro no próprio pé: ‘[…] E não adianta torcer o nariz para a pornografia..” ´FALTA TUDO NESTA PROFISSIONAL, INCLUSIVE CONHECIMENTO. Respondi mas não “mediaram” meu comentário, então, que remédio publiquei um belo texto texto no meu blog.

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