A chata do Carnaval

Publicado: fevereiro 13, 2013 em mercantilização
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#eu #carnaval #chateada

Desde que o carnaval deixou de ser, pra mim, sinônimo de catar confete no chão e correr pela praça de Rio Novo, cidadezinha do interior de Minas Gerais na qual passei praticamente todos os carnavais da minha infância, tenho aguardado a chegada dessa data com um misto de tensão e pavor. A verdade mesmo é que, desde pequena, sentia certa estranheza e mal-estar ao ver aqueles machões fantasiados como (a imagem estereotipada do que é ser) “mulher”. Também nunca gostei da música, mesmo quando não entendia muito bem as letras e não fazia ideia do que será que era ou não era o tal do Zezé. Mas deprimente mesmo era a Quarta-feira de Cinzas ao som dos gritos do meu vizinho-oráculo tentando adivinhar as notas das escolas de samba, segundos antes do próprio locutor. Definitivamente, ainda não sei o que era pior: quando a Beija-Flor ganhava ou perdia. 

 Por essas e outras, quando a Globeleza surgia na tela, anunciando a chegada da festa da carne, eu já começava a imaginar um jeito de passar mais ou menos ilesa à data – o que nunca acontecia. Já na vida adulta(?!), o carnaval era, no mínimo, sinônimo de um feriado prologadamente merecido pra classe trabalhadora. Em nome das boas companhias dos amigos e amigas, acabava topando um ou outro programa carnavalesco, incluindo o Rio Novo revisitado, uma viagem ao Rio de Janeiro e algumas passagens pelos bloquinhos da Vila Madalena. Não me arrependo de nada, e inclusive tenho uma pá de lembranças divertidas, graças aos bons amigos(as) e ao álcool. Mas fato é que a tensão e o pavor nunca diminuíram. Pelo contrário, quando passei a ter mais discernimento pra compreender o mal-estar que até então não tinha nome, mas que, de alguma forma, eu sempre senti com o combo “misoginia + sexismo + música ruim”, aí é que o policiamento foi redobrado, na tentativa desesperada de não ser “a chata do carnaval”.

 Então de repente, não sei qual epifania me levou a ter uma visão: eu descobri que não era nem obrigada. Não era nem obrigada a ser agarrada à força e ouvir merda de um bando de ogros descamisados. Não era nem obrigada a enfrentar fila, em um calor quase sempre infernal, pra mijar num banheiro químico, sem um motivo mais ou menos razoável pra isso. Não era nem obrigada a assistir a umas minas vestidas quase somente com purpurina desfilando pra fazer a alegria de caras que iriam desqualificá-las, exatamente por estarem semi-nuas pra deleite deles mesmos – vai entender… Não era nem obrigada a achar engraçado uns outros caras, homofóbicos e transfóbicos o ano inteiro, se vestindo de “mulher” pra tirar um sarro no Carnaval. Sobretudo, não era nem obrigada a ouvir música ruim com letra que diz o oposto do que eu penso sobre a vida e, sobretudo, sobre relações entre mulheres e homens na vida.

 E foi quando, finalmente, eu me libertei. Me libertei de qualquer mal-estar pessoal envolvendo a data, e passei a recusar convites das amigas mais queridas sob a justificativa mais plausível que consegui encontrar em todo o Universo: eu sou a chata do Carnaval.

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