Paulistana

Publicado: janeiro 31, 2014 em outras
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Mudar-se, sim. Perder as origens, jamais. :)

Mudar-se, sim. Perder as origens, jamais. 🙂

Quando me dei conta, já entrava no metrô sem pensar, caminho automático mental estação-casa-trabalho-casa. Já não olhava pras pessoas, a não ser pelo reflexo do vidro do trem. O anonimato foi uma das coisas que sempre me atraiu em São Paulo. Poder andar por aí, com o cabelo mais cagado do mundo, com a certeza que não vai encontrar ninguém conhecido no caminho.

Quando uma velha amiga viu eu me plantar à porta do metrô, na velocidade de um raio, na busca por um assento à sombra e ao ar (nem sempre) condicionado da CPTM, exclamou assustada: “virou paulistana mesmo!”. Quando me vi, já tinha trabalhado sábado, domingo e feriado. Tinha passado finais de semana inteiros dentro de casa, só pelo cansaço acumulado de segunda a sexta – e workaholic é só uma palavra descolada pra dizer que não tá fácil pra ninguém mesmo.

Há quatro anos, debaixo de uma chuva torrencial de janeiro, eu chegava em São Paulo, com uma mochila nas costas, um mês de aluguel no Rio Pequeno e uma ideia insistente na cabeça de “ver no que ia dar”. Hoje vejo que não tinha outro jeito mesmo, foi amor à primeira enchente. E, algumas enxurradas depois, já não me perdia no caminho República-Anhangabaú-Praça da Sé – exceto por pressa, fome ou distração. Mas, de um jeito ou de outro, aqui a gente aprende a se virar.

Paulistano não dá carona. Quando dá, é até o metrô. Na certa sabe que a volta pode demorar mais de 2h, ainda que o caminho seja de 10km. Paulistano é arrogante, vai morrer tomando expresso com bolacha, ainda que na embalagem tenha escrito em letras garrafais BISCOITO. Também pudera… Esse quê de arrogância até faz sentido, quando ser paulistano significa poder ver os Breeders na quarta-feira mais fria e chuvosa do ano, em ver a Cat Power em plena terça-feira, logo ali na Liberdade, e em ver o Glenn Branca no Belenzinho, por singelos 6 mangos. Se pá, aqui a gente poder comer pizza com o Team Dresch e cruzar com o J. Massis às 3 da tarde na Augusta. Tietar? Jamais – vai contra os sagrados mandamentos cool dos paulistanos!

Ser paulistana é amar São Paulo nos feriados e finais de semana. É ver todo um leque de programas de graça no Catraca Livre e não ir a nenhum deles porque tá no trampo. É saber que a Consolação fica na Paulista e a Paulista na Consolação, e ver todo o sentido nisso. Embora saiba que só mesmo muita cachaça superfaturada pra explicar as trombadas na Linha Amarela. É saber que a diferença entre paulista e paulistana é tão grande quanto entre mineira e juizforana.

Sobretudo, ser paulistana é viver perigosamente na Cidade Proibida, na cidade dos não-podes. Não pode andar de skate na praça depois das 22h. Não pode fumar embaixo de marquise. Não pode grafitar que pintam de cinza. Criança não pode jogar bola no play. Cachorro não pode latir em apartamento. Não pode dar mole com celular. Não pode morar em prédio desocupado. Maionese caseira então – vish – dá um B.O. gigante. Reza a lenda que ovo com gema mole, gritar na feira, distribuir sopa e doar lixo pra reciclagem estão proibidos desde a gestão passada.  Dormir na praça, só se não tiver banco-anti-mendigo. Artista de rua agora já pode – só até esbarrar na lei do silêncio. PSIU, por falar nela: beber na calçada, só até a 1h,  depois a puliça passa recolhendo mesa, cadeira e os locki junto. “O baguio é loco, mano”.

É tanta nóia que às vezes dá vontade de largar tudo e plantar o próprio tomatinho orgânico no meio do mato. E até mesmo essa vontade passa, porque é tão clichê que se todo mundo resolver botar em prática Araguari vai ter mais hipster que a Oscar Freire. Mas com nóia ou sem nóia, com chuva ou sem chuva, com trânsito ou sem trânsito, só sei de uma coisa: São Paulo, é impossível não te amar.

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