Viajantes sem casa: “O Eco das Canções” e o que reverberamos delas

Publicado: junho 1, 2014 em cinema, cultura
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[Texto escrito a convite da WIFT (Women In Film & Television) Brasil, em ocasião da mostra “Silêncios Históricos e Culturais”*, que marcou os 50 anos do golpe militar no Brasil.]

Cena do documentário “O Eco das Canções”, de Antonia Rossi.

Cena do filme “O Eco das Canções”, de Antonia Rossi.

Quanto de nós é resultado das paisagens que vimos, das músicas que ouvimos, dos comerciais que passavam na tevê enquanto crescíamos? Em que parte os rumos que nossa vida tomou foram influenciados pelo contexto histórico que vivemos? Em “El Eco de Las Canciones” (2010), Antonia Rossi abre seu álbum de família tentando encontrar sua identidade no turbilhão de imagens, sons e sentimentos que vão surgindo em seus sonhos e em sua memória.

Antonia nasceu na Itália, quase por obra do acaso – “E se tivesse nascido em outro país?”, ela se pergunta, em meio a tantas incertezas. Migrando de uma casa a outra, de uma cidade a outra, conhecendo novas pessoas e se despedindo de tantas mais, fazendo planos ousados – incluindo catástrofes naturais – que nunca aconteceriam. É assim que a diretora, personificada na voz em off da protagonista do filme, se lembra de boa parte de sua infância.

Filha de militantes chilenos exilados pela ditadura Pinochet, só foi conhecer a terra natal de seus pais aos dez anos de idade. E é nessa obra totalmente sensorial que ela tenta descobrir-se em meio a suas próprias lembranças e ao contexto da época. Mas Antonia prefere a sutileza ao libelo anti-autoritário. O regime que originou mortes, torturas e perseguições políticas em “sua” terra natal não é senão o pano de fundo desbotado para sua própria diáspora familiar.

VHSs familiares, desenhos animados e telejornais de época mesclados a imagens captadas de um Chile revisitado compõem o mosaico desse onírico videoclipe que parece durar o interminável tempo de um piscar de olhos. Perdida nessa torrente visual e sonora, a protagonista, entretanto, acaba revelando não ter a menor pretensão de encontrar-se, inebriada demais pelo prazer de abrir um velho diário com recortes de jornal amarelados: “A fuga é tão poderosa que nunca quero abandoná-la”.

Em meio a tantas lembranças, também emergem constantemente em seus pensamentos imagens de fenômenos e elementos da natureza: chuva, vento, nascer e pôr-do-sol, parecendo sentir-se como um grãozinho de areia numa tempestade no deserto. Ao final, talvez seja o que todos(as) nós sejamos: apenas ecos das canções que ouvimos no rádio em algum momento de nossa infância.

Bruna Provazi

* “A mostra “Silêncios Históricos e Pessoais”, que passou por São Paulo na quinzena em que o golpe militar no Brasil fez 50 anos, levou às telas da Caixa Cultural 17 filmes sobre as ditaduras latino americanas. Selecionados por Natalia Barrenha, que é também idealizadora do projeto ao lado de Pablo Piedras, os documentários têm a subjetividade formal como elo comum: narrados em primeira pessoa, mesclam as memórias pessoal e coletiva, desfocando o limiar entre o íntimo e o histórico. Como o feminino está fortemente presente na mostra – seja no olhar por trás das câmeras (as mulheres são maioria na direção) e/ou pelo protagonismo nos filmes – a WIFT Brasil pediu a um grupo de oito mulheres que selecionasse um dentre os 17 documentários e o resenhasse. Escolhidas por se identificarem – direta ou indiretamente – com alguma temática das obras, essas mulheres escreveram textos sensíveis, fortes, mais ou menos intimistas. Inspiradores.” – WIFT Brasil [Você pode ler os outros textos clicando aqui.]

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