CÁSSIA: um sopro de liberdade em tempos sombrios

Publicado: novembro 7, 2014 em cinema, cultura
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As luzes se acenderam e não havia um só par de olhos corajoso o suficiente pra não deixar derramar derradeiras lágrimas no canto. Uma brisa doce e selvagem havia estapeado o rosto de cada um/a de nós que decidiu sair do conforto de casa numa quarta-feira à noite pra ocupar as poltronas do CineSabesp na última sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na telona: CÁSSIA, documentário de Paulo Henrique Fontenelle que tem estreia nacional marcada pra janeiro de 2015.

Entrecortado por fotos, trechos de shows, entrevistas e videoclipes de Cássia Eller, o tom do documentário, entretanto, é dado pelos preciosos e dilaceradamente sinceros depoimentos de ícones das música brasileira e amigos íntimos da cantora, como Zélia Duncan e Nando Reis, e de familiares, como a ex-companheira Maria Eugênia e o filho Chicão, além de seus ex-parceiros de banda.

cassia-filmeEm um competente trabalho de pesquisa e edição, os trechos de entrevistas de Cássia complementam os depoimentos, quase que trazendo-a de volta para confirmar ou subverter os causos contados pelos/as amigos/as. A sensação que fica é que até em sua biografia ela tinha que meter o dedo.

Caso a alguém falhe ou mal-diga a memória, o filme vem deixar claro que Cássia era uma artista autêntica. Se as canções que gravou não eram de sua autoria, sua voz e interpretação, por sua vez, compunham o tom autoral que demarcava um estilo próprio. Prova disso está no trecho em que Ângela Rô Rô narra como “perdeu” a música “Malandragem”, que Cazuza e Frejat haviam oferecido pra ela – um dos pontos altos do filme. E se sua música se tornou mais suave com o amadurecimento de seu trabalho, essa guinada era reflexo também de seus sentimentos naquele momento. Figurino, linguajar e presença de palco, entretanto, eram os mesmos moleques de sempre:  Cássia não moldou seu estilo ao sabor das tendências do momento.

Em tempos culturais tão mercantilizados, em que a música muitas vezes é pautada pela mais nova moda memetizável/monetizável, seria difícil pensar que alguém – especialmente uma mulher – pudesse subir ao palco de bermudão e camisa de futebol sem que houvesse uma mega estratégia de marketing hipster por trás. Levantar a blusa (sem sutiã!) no meio do show? Falar abertamente sobre drogas e homossexualidade? Eram outros tempos, realmente… E a honestidade e a naturalidade com que o longa passeia por esses e outros tópicos polêmicos, como relações não-monogâmicas, nos fazem sentir um certo nojinho desse puritanismo obscurantista contemporâneo…

Durante a maior parte do tempo, os depoimentos bem-humorados e a edição musicalizada – afinal, como fazer um doc. de música sem música? – garantem o tom nostálgico e alegre do filme. Em um dos trechos mais bonitos, Nando Reis chega a confessar: “Fico imaginando como ela estaria agora…”, revelando um desejo secreto de presenteá-la com uma nova canção. Em algum momento, também nos pegamos imaginando: “Como ela estaria? Que música estaria fazendo?”.

Mas esse sorriso no rosto logo nos é arrancado quando nos aproximamos dos momentos finais. Impossível não se emputecer com a narrativa sensacionalista de sua morte, estampada de forma canalha nos principais jornais e revistas do país. Daí pra frente é só emoção, culminando no ponto mais forte do doc: a conquista da guarda de Chicão por sua ex-companheira Maria Eugênia.

Parece não haver dúvidas que temos um cinema de retomada dos nossos grandes ícones da música popular brasileira: Cazuza – O Tempo Não Para (2004); Fabricando Tom Zé (2006); Cartola – Música Para os Olhos (2007); Lóki — Arnaldo Baptista (2008), do mesmo diretor de CÁSSIA; Simonal: Ninguém Sabe o Duro Que Dei (2009); Raul — O Começo, o Fim e o Meio (2012); Olho Nu (2012), sobre Ney Matogrosso; Dominguinhos (2013); e Tim Maia (2013). Porém, enfim chega às telas um filme sobre uma de nossas principais cantoras brasileiras.

No bojo da expansão do formato digital e das leis de incentivo no Brasil, o filme é mais um que vem contribuir para o registro e a preservação da memória cultural e musical de nosso povo – em especial, de nossas artistas mulheres, historicamente tão invisibilizadas nas artes. CÁSSIA chega aos cinemas em janeiro de 2015 premiado pelo público da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como Melhor Documentário Brasileiro. Não tardar, esperamos que esteja disponível em DVD e na internet, para deleite das novas e velhas gerações.

[Vocês conhecem outros docs. de mulheres na música? Quais? Deixem aqui suas indicações. ;)]

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