Posts com Tag ‘feminismo’

As luzes se acenderam e não havia um só par de olhos corajoso o suficiente pra não deixar derramar derradeiras lágrimas no canto. Uma brisa doce e selvagem havia estapeado o rosto de cada um/a de nós que decidiu sair do conforto de casa numa quarta-feira à noite pra ocupar as poltronas do CineSabesp na última sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na telona: CÁSSIA, documentário de Paulo Henrique Fontenelle que tem estreia nacional marcada pra janeiro de 2015.

Entrecortado por fotos, trechos de shows, entrevistas e videoclipes de Cássia Eller, o tom do documentário, entretanto, é dado pelos preciosos e dilaceradamente sinceros depoimentos de ícones das música brasileira e amigos íntimos da cantora, como Zélia Duncan e Nando Reis, e de familiares, como a ex-companheira Maria Eugênia e o filho Chicão, além de seus ex-parceiros de banda.

cassia-filmeEm um competente trabalho de pesquisa e edição, os trechos de entrevistas de Cássia complementam os depoimentos, quase que trazendo-a de volta para confirmar ou subverter os causos contados pelos/as amigos/as. A sensação que fica é que até em sua biografia ela tinha que meter o dedo.

Caso a alguém falhe ou mal-diga a memória, o filme vem deixar claro que Cássia era uma artista autêntica. Se as canções que gravou não eram de sua autoria, sua voz e interpretação, por sua vez, compunham o tom autoral que demarcava um estilo próprio. Prova disso está no trecho em que Ângela Rô Rô narra como “perdeu” a música “Malandragem”, que Cazuza e Frejat haviam oferecido pra ela – um dos pontos altos do filme. E se sua música se tornou mais suave com o amadurecimento de seu trabalho, essa guinada era reflexo também de seus sentimentos naquele momento. Figurino, linguajar e presença de palco, entretanto, eram os mesmos moleques de sempre:  Cássia não moldou seu estilo ao sabor das tendências do momento.

Em tempos culturais tão mercantilizados, em que a música muitas vezes é pautada pela mais nova moda memetizável/monetizável, seria difícil pensar que alguém – especialmente uma mulher – pudesse subir ao palco de bermudão e camisa de futebol sem que houvesse uma mega estratégia de marketing hipster por trás. Levantar a blusa (sem sutiã!) no meio do show? Falar abertamente sobre drogas e homossexualidade? Eram outros tempos, realmente… E a honestidade e a naturalidade com que o longa passeia por esses e outros tópicos polêmicos, como relações não-monogâmicas, nos fazem sentir um certo nojinho desse puritanismo obscurantista contemporâneo… (mais…)

tatoomnvQuando eu era adolescente, tinha dois sonhos: poder tocar guitarra sem ser expulsa de casa e assistir aos shows das minhas bandas preferidas em Juiz de Fora. Algumas delas eu já tinha até viajado 8 horas pra ver ao vivo, mas não era só isso que eu queria… Queria levar as bandas que eu curtia pra tocar na minha cidade, pros meus amigos. E eu sabia que, se não movesse a bunda da cadeira, continuaria me contentando em ir aos shows das bandas preferidas de quem se dispunha a fazer isso – mesmo sabendo que, inevitavelmente, iria ficar no prejú .  (mais…)

Marcha Mundial das Mulheres

Por: Bruna Provazi *

As bolhas da internet às vezes causam essa sensação de que estamos avançando no combate ao machismo, ao patriarcado e coisa e tal… Uma breve olhada pro horizonte à frente, pra história atrás e pra vida de todas as mulheres à nossa volta, entretanto, mostram um cenário um pouquinho diferente…

camisetabuceta2 A camiseta em questão…

Nas últimas semanas, gerou polêmica na rede uma foto da top model Izabel Goulart publicada em seu Instagram e reproduzida pela Marie Claire com o seguinte título: “Izabel Goulart se despede do Rio de Janeiro e exibe corpo perfeito”. Eu só tomei conhecimento de tal foto depois que começaram a pipocar na minha timeline do Facebook diversas críticas à abordagem da revista. Mesmíssima coisa aconteceu com a polêmica em torno da camiseta da American Apparel cuja estampa traz uma vagina peluda e menstruada sendo masturbada, e a qual Julia Petit tratou…

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Marcha Mundial das Mulheres

Por: Bruna Provazi*

Há pouco tempo atrás, um amigo me perguntou se era eu quem fazia a página “Feminista Cansada”, que é pra mim uma das páginas mais legais do Facebook e do Twitter. Expliquei a ele que, infelizmente, não havia pensado nesse ótimo título antes, mas que era exatamente assim que eu me sentia. Hoje, devo dizer que me sinto uma feminista exausta mesmo. Faz sete anos que comecei a militar no feminismo de forma organizada (em um coletivo de mulheres), e seis anos que milito na Marcha Mundial das Mulheres, e é triste pensar que às vezes parece que nada mudou, nesse brevíssimo espaço de tempo. Ou talvez pouca coisa tenha mudado, pra ser mais justa com a gente que tá na batalha diária contra o machismo.

 Semana passada, passei pela infeliz experiência de ir até a rua Santa Ifigênia, no centrão de São Paulo. Bem… eu…

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[Texto publicado originalmente no site Blogueiras Feministas, em 26/06/2012]

Em 2011, com data marcada no Facebook para acontecer, a questão era ir ou não à Marcha das Vadias de São Paulo, manifestação sobre a qual as poucas informações que tínhamos vinham da mídia gringa ou das redes sociais.

Concentração para Marcha das Vadias em São Paulo/SP 2012. Foto de Cecília Santos.

A gente, da Fuzarca Feminista, núcleo jovem da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo, achou que tinha que ir. Outras pessoas também acharam. Conversamos alguns minutos sobre nossa participação como coletivo. Afinal, atuar de forma coletiva implica em refletir sobre as posições que tomamos em conjunto e conseguir minimamente defendê-las de dentro (de um movimento que é amplo em toda a sua diversidade de classe, raça/cor, idade, orientação sexual…) pra fora.

Fizemos uma oficina de cartazes, levamos nossos batuques, pensamos em um provável trajeto — que ia depender da vontade das outras pessoas envolvidas —, divulgamos na internet e fomos lá nos somar. A primeira Marcha das Vadias realizada no Brasil foi feita assim, com a cara de quem apareceu na Avenida Paulista no dia 3 de junho de 2011, (ul)trajada com seus cartazes, ideias e gritos feministas. (mais…)

Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo/SP (2011). Foto: Elaine Campos.

 Pode começar com uma mensagem no gtalk, um comentário no Facebook ou um tuíte – pra quem trabalha no computador ou passa horas nele por conta de estudo/hobbie. Pode começar depois de uma fala machista de um policial, no meio de uma palestra em uma faculdade de Direito – como no caso da Marcha das Vadias (Slutwalk), que só foi ganhar a internet depois. As nossas ideias criativas de como mudar a vida das mulheres pra mudar o mundo/mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres não escolhem ocasião, surgem como contra-ofensiva (alternativa) à ofensiva sexista cotidiana.

Então, de repente, você encontra parceiras pra fazer as mais variadas coisas, de panfletagens e ações diretas nas ruas a tuitaços e blogagens coletivas. Parceiras que compartilham das mesmas visões de mundo, ainda que com uma ou outra divergência saudável, e, principalmente, que compartilham das mesmas motivações pra querer tornar a vida mais justa e solidária entre mulheres e homens. E daí que basta pensar alto pra que essas pessoas se somem a você, com o mesmo gás pra fazer acontecer #tudoaomesmotempoagora: o feminismo é urgente e não pode esperar. (mais…)

Nunca pensei que conheceria alguém de Olympia. Nunca pensei que conversaria sobre o riot grrrl com alguém do Rock Camp for Girls de Olympia. Nunca pensei que sentaria no chão e arrastaria meu inglês com pessoas tão fodas de uma das bandas mais legais da atualidade.

Eu resolvi prestar atenção no RVIVR quando a Adriessa me falou que uma das minas da banda era feminista. Até aí, OK, era só uma banda legal de hardcore que eu ia ter a oportunidade de ver ao vivo. E na última quinta-feira, véspera de feriado de Páscoa, fomos à terceira edição do evento Liga Juvenil Anti-Sexo com a humilde missão de entrevistá-los e de curtir o show. (mais…)